21.4.08

26/04 - Traídos Pelo Desejo (Neil Jordan)

Neste Sábado Dia 26/04 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

Fergus, um guerrilheiro do IRA , sequestra um soldado britânico chamado Jody e fica no aguardo de ordens de seus superiores acerca do destino de seu prisioneiro. Mas com o passar do tempo, os dois acabam se aproximando e criando um laço de amizade, fazendo com que Dil, a namorada do soldado britânico, acabe se envolvendo com o guerrilheiro. Muito comentado e controverso na época de seu lançamento, Traídos pelo Desejo traz performances magistrais em um roteiro intrigante, inteligente e repleto de nuances e segredos. Miranda Richardson; Stephen Rea, indicado ao Oscar por seu papel nesse filme; o vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes Forrest Whitaker e a intrigante estréia de Jaye Davidson. Um dos melhores e mais polêmicos filmes dos anos 90. Indicado a sete prêmios Oscar, incluíndo melhor filme – vencedor na categoria Melhor Roteiro Original.

Título Original: The Crying Game
Tempo: 112 minutos
Cor: Colorido
Ano de Lançamento: 1992
Recomendação: 16 anos
Pais de Origem: Reino Unido/ Japão


----------------------------------------------------------------------------

O Sapo e o Escorpião

Vander Colombo

Fui advertido ainda esta semana que Traídos pelo Desejo que será exibido no sábado não se encaixava no perfil dos filmes exibidos pelo cineclube, isso primeiro me preocupou em relação ao próprio filme, mas após revê-lo foi o perfil do cineclube que me deixou preocupado.

Em grande parte a culpa foi minha por ter tentado trazer nesses dois anos alguns títulos moderninhos, ao mesmo tempo em que deixei de lado alguns filmes importantíssimos para a questão ‘entendimento cinematográfico’. Percebi que nos dois anos não escalei para exibição nenhum filme noir, e o que mais chegou perto foi um filme que não agradou muito o público, o holandês O Silêncio do Lago. Veio-me logo à cabeça que provavelmente Traídos pelo Desejo também não iria agradar... mas caramba, o que estou dizendo? Se o objetivo do cineclube fosse o de agradar a maioria, se instalaria no shopping-center e cobraria ingressos. Pelo contrário, o objetivo é fazer-se apreciar o cinema em todas as suas vertentes artísticas... E até mesmo o cinema comercial já soube apreciar o noir, e o independente continua fazendo isso com os neo-noirs com direito até a Oscar de melhor filme em 2008.

Eis uma mais que breve introdução aos filmes noir: O termo foi cunhado pelos franceses na década de 40, que privados das produções hollywoodianas durante a ocupação, começaram a receber vários filmes americanos com similaridades, entre eles estava O Falcão Maltês ou Relíquia Macabra de John Houston que é considerado o noir por excelência, os americanos adoraram o elogio europeu e assimilaram o termo que é discussão até hoje entre críticos e cinéfilos, o que assumiu na cultura popular cinefílica a definição dos “filmes policiais com luz expressionista, offs, com uma mulher fatal e um detetive ou anti-herói durão ou trouxa, cheios de violência e erotismo, etc”[1]

O chamado neo-noir assumiu essa postura modernizando os temas da década de 40, os Irmãos Coen são os principais difusores deste novo estilo desde seu primeiro filme Gosto de Sangue, passando por O Homem Que Não Estava Lá até sua mistura de newestern com neo-noir Onde os Fracos Não Têm Vez.

Traídos pelo Desejo do diretor irlandês Neil Jordan se encaixa perfeitamente num neo-noir apesar de não ter banca de um. Talvez por isso para muitos ele possa parecer um filme policial comum, mas está longe disso, todos os elementos estão lá para serem subvertidos e questionados.

Sabe aqueles filmes que te dizem: “quanto menos você souber melhor”? É desses. O “problema” é que o filme ganhou Oscar de roteiro original e sua reviravolta virou conversa de botequim, sendo que muitos nem viram o filme, mas conhecem a tal. Como sou bonzinho vou poupar os felizes desconhecedores e mudar de assunto.

Mas digo que um pouco mais de atenção faz o espectador perceber que não está sendo passivo nesse “jogo de lágrimas” e ao invés de esperar conclusões, está fazendo julgamentos morais a todo o momento. Essa é a grande sacada do texto do próprio diretor. Além é lógico do próprio julgamento moral implícito no filme contra qualquer tipo de intolerância, e convenhamos, em épocas que se vê godzillas acéfalos se digladiando e estourando a cabeça um dos outros com calibres .12 sob os uivos selvagens de uma platéia sedenta de qualquer tipo de vingança, isso é no mínimo redentor.

E creio que mesmo se só após ler essas linhas alguém que apareça lá no sábado conseguir assistir o filme nesse viés, sairá recompensado. Sabendo que por vezes primeiro vale a identificação das metáforas simples, antes de pegar os Bergman’s e Godard’s das semanas seguintes e ‘boiar’ do começo ao fim.

É um caminho lento mas proveitoso, sendo que poucos como esse vão dar a mamata de lhe contar uma fábula a qual para os mais atentos ajudará a não ver o filme no seu superficial somente, e lembrar que o comercialismo ainda é uma espécie de ditadura. Por isso quando se tem realmente algo a dizer, tem-se que recorrer as entrelinhas.

Era uma vez um sapo e um escorpião, o segundo por não conseguir nadar, pediu ao primeiro que o ajudasse a atravessar o rio, carregando-o em suas costas. O sapo disse:

_ Nem pensar, se você subir em minhas costas irá me picar e me matará

O escorpião respondeu:

_ Não seja tolo, se eu picá-lo, os dois morreremos.

O sapo se convence e então deixa o escorpião subir em suas costas e começam a atravessar o rio. Quando estão na metade do caminho o sapo sente a picada nas costas, e conforme vai afundando junto com o escorpião ele grita:

_ Maldito, você tinha prometido! Por que me picou?

_ Eu não pude evitar... é a minha natureza. - Respondeu o escorpião.

O filme “Traídos pelo Desejo (The Crying Game)” será exibido neste sábado dia 26/04 às 19:30h no SESC Cineclube Silenzio.

A entrada é gratuita.


[1] MASCARELLO, Fernando - História do Cinema Mundial – 2ª Ed. – Papirus Editora

17.4.08

19/04 - A Felicidade dos Katakuri (Takashi Miike)

Neste Sábado dia 19/04 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA




A família Katakuri acabou de abrir uma casa de hóspedes nas montanhas. Infelizmente seu primeiro cliente comete suicídio e querendo evitar problemas eles decidem enterra-lo no jardim. Porém, a lei de Murphy também impera na terra do sol nascente e as coisas vão ficar cada vez mais complicadas e distanciando a família da felicidade que buscavam juntos no campo. Um musical completamente diferente de tudo o que já se viu, do mesmo diretor de Audition.

Título Original: Katakuri-ke no kôfuku (2001)
Direção: Takashi Miike
Pais de Origem: Japão
Duração: 112 minutos


*******************************************************************

“As montanhas estão vivas pelo som dos gritos...”

Vander Colombo

Quando o cineclube no ano passado exibiu um filme chamado Audition (Entrevista) do diretor japonês Takashi Miike, minha intenção era a de colocar esse nome na lista dos diretores dos cinéfilos cascavelenses que o desconheciam, sendo que na época o diretor já tinha dezenas de títulos e somente o episódio da série Masters of Horror havia sido lançando em DVD no Brasil. O filme era visto como o melhor exemplar de Miike juntamente com Ichi, o Assassino, e verdade seja dita, que já eram febre no Brasil, devido às abençoadas cidades que tem grandes festivais e principalmente à internet.

O filme causou reações diversas, desde o fã de terror que dentro de uma infinita prepotência achou o começo chato, o que o fez perder uma das turgescências mais pesadas da história do cinema, até os mais sensíveis que lotaram a caixa de e-mail do SESC exigindo uma classificação etária mesmo não tendo ninguém com menos de 16 na sessão.

Desde o começo do Silenzio sua intenção junto dos outros cineclubes é fazer aumentar o número de pedidos por certos diretores que forçasse o lançamento nacional, ou se já lançado, a compra das cópias pelas vídeo-locadoras, tornando assim o acesso do cinema não-hegemônico mais fácil. Essa pesquisa por nossa parte por vezes nos traz grandes cineastas que se não estão no hall dos maiores, mas com certeza estarão. É o caso de Miike, apesar de alguns críticos ainda torcerem o nariz devido ao seu desapego a perfeição de efeitos. Contudo a Revista SET é a prova viva que qualquer moleque espinhento pode se dizer crítico mesmo sem ter referencial teórico nenhum, e vomitar “achismos” e frases feitas para um público que consome fofoca ao invés de cinema. Tirando esses indivíduos, os que se dedicaram a conhecer Miike, perceberam antes de tudo seu ecletismo nos assuntos escolhidos que vão do terror extremo, até filmes infantis, tudo isso aliado a uma prolificidade que não se via desde a morte de R. W. Fassbinder.

Por conta disso, achei que o primeiro filme de Miike a ser exibido depois de Audition, poderia ser A Felicidade dos Katakuri, que, afinal é um musical familiar,... Mas é um Takashi Miike. O que o torna uma comédia-romântica-familiar-de humor-negro-com-toques-de-terror-light-stop-motion-bizarros-e-números-musicais-bregas-com-zumbis. E isso faz toda a diferença. A frase que escolhi para nomear esse texto é o slogan americano do filme, claramente uma brincadeira com a frase famosa do filme A Noviça Rebelde: “The hills are alive with the sound of music

Um filme que começa com uma moça tirando um cupido feito com massinha de modelar de dentro de um prato de sopa já diz ao que veio e logo lhe informa que será diferente. Miike brinca o filme todo com a ocidentalização da cultura nipônica, e de como o ocidente vê essa cultura tão diferente do lado de lá. Por exemplo, os números musicais são repletos de ‘caras e bocas’ e dancinhas que fazem Rocky Horror Picture Show parecer bem coreografado, sempre evocando o exemplar mais nipônico impossível: o karaokê. Apesar das brincadeiras, é visível o respeito de Miike por sua cultura, mesmo volta-e-meia a criticando (em Audition os instrumentos de tortura são objetos caros aos orientais como incensos e agulhas de acupuntura), tanto que apesar de fazer enorme sucesso nos EUA e ser considerado “um dos diretores mais talentosos da atualidade” por nomes como Quentin Tarantino, Miike flerta com o ocidente, mas se recusa a aprender inglês, por exemplo. Um de seus últimos filmes também faz essa mistura de pólos, Sukiyaki Western Django. É isso mesmo que você está pensando: um remake do faroeste italiano Django com atores japoneses falando um inglês só possível de entender com legendas. Detalhe: Tarantino atua no filme e fala esse mesmo inglês.

O cinema importa mais a Miike do que os seus filmes, e ele faz questão de deixar isso claro, seja usando inúmeras técnicas de câmera e/ou edição numa mesma obra, seja recuperando elementos de um filme para outro sem nenhuma ligação aparente; especializando-se tanto no trash japonês como no terror comercial (Ligação Perdida já ganhou remake hollywoodiano); até episódios como A Grande Guerra Yokai que parece um episódio do Ultramen... E é nesse em especial que ele mostra que não estão nem aí com os críticos chinfrins, já que um dos principais personagens é um boneco de luva que tem menos movimentos que o Louro José. Então se você quer ver um Miike com efeitos mais perfeitos tem que procurar seus filmes mais comerciais, agora se quer ver um Miike de verdade como é o caso de A Felicidade dos Katakuri deve se despreocupar com coisas do estilo “o fio do cara que tá voando está aparecendo nitidamente” ou “que boneco mal-feito” pois isso tudo é feito intencionalmente e segundo uma entrevista do próprio Miike, ele supervisiona os efeitos especiais para que não pareçam reais demais, a menos que o filme realmente peça por isso.

Por conta disso, os cineclubes quando exibem filmes, pedem uma visão diferenciada de seu público para que por exemplo, não se assista A Felicidade dos Katakuri esperando ver um Chicago, por que a proposta não é essa, longe disso. E o que nos deixa felizes é o fato é que esse público começa a se formar, prova foi que anunciando um novo filme de Miike a ser exibido, boa parte do público vibrou, demonstrando que apesar de um único filme ter sido exibido o diretor já tem seu público em Cascavel. Fora daqui, Miike já é figura carimbada nas sessões de cineclube, o que forçou o lançamento de vários títulos do diretor no Brasil do ano passado pra cá. Infelizmente o feitiço volta-se contra o feiticeiro, pois algumas distribuidoras iniciaram uma caça-às-bruxas contra os cineclubes, como é o caso da Europa Filmes, que faz uma cruzada nacional fechando cineclubes brasileiros que exibem seus filmes, o que nos força a ter de deixar de exibir outro filme já programado de Miike, Ichi, o Assassino. E já que a maioria dos filmes exibidos em cineclubes em nada lembra o comercial, soaria irônico, caso não fosse trágico, o fato da democratização cultural ao invés de se converter em grandes investimentos, novamente seja singularizada aos tribunais de pequenas causas.

A Felidade dos Katakuri será exibido nesse sábado dia 19/04

Às 19:30h no SESC Cineclube Silenzio

A entrada continua sendo gratuita.

8.4.08

12/04 - Sonhos de Um Sedutor (com Woody Allen)

Neste Sábado Dia 12/04 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA


Allan Felix (Woody Allen), um crítico de cinema que consome filmes ansiosamente e idolatra "Casablanca", é abandonado por Nancy Felix (Susan Anspach), sua mulher, que quer o divórcio pois não agüenta mais a insegurança emocional dele. Incapaz de lidar com este momento conturbado da sua vida, Allan busca consolo nos filmes que ama enquanto imagina Humphrey Bogart (Jerry Lacy) lhe dando conselhos de como Allan deve lidar com as mulheres, sendo que estes conselhos são desprovidos de qualquer sutileza. Paralelamente, um casal de amigos, Dick Christie (Tony Roberts) e Linda Christie (Diane Keaton), tentam ajudar Allan lhe arrumando encontros com outras mulheres, mas todos resultam em total fracasso em virtude da insegurança e nervosismo de Allan. Finalmente Allan percebe que tem passado mais tempo com Linda do que com qualquer outra mulher e sente-se atraído por ela, pois é a única mulher que ele se sente realmente à vontade. Linda se mostra receptiva às investidas de Allan, pois Dick tem trabalhado tanto que ela se sente abandonada. Mas Allan carrega um sentimento de culpa, por estar amando a mulher de seu amigo.
* Informações Técnicas
Título no Brasil: Sonhos de um Sedutor
Título Original: Play it Again, Sam!
Direção: Herbert Ross
País de Origem: EUA
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 81 minutos
Ano de Lançamento: 1972

* Elenco
Woody Allen .... Allan Felix
Diane Keaton .... Linda Christie
Tony Roberts .... Dick Christie
Jerry Lacy .... Humphrey Bogart
Susan Anspach .... Nancy Felix
Jennifer Salt .... Sharon
Joy Bang .... Julie

***********************************************************************

Toque novamente, Sam

Vander Colombo

Os efeitos da cultura popular nos americanos são devastadores, nos EUA, o cinema é o maior formador de opinião disparado, e chegou a exportar para diversos países (incluindo o Brasil que foi um alvo muito bem-sucedido) a maneira de falar, vestir e agir no que deveria ser o famoso American Way of Life, que já está hoje mais para Occidental Way of Life, diga-se de passagem. O cigarro fumado pelo cowboy, a coca-cola bebida pelo mocinho, o bourbon do detetive, enfim, o cinema hollywoodiano principalmente da Era Reagan em diante tornou-se o maior centro de merchandising do globo, porém a força de suas personagens já não é mais a mesma que era antes dessa fase, talvez porque a criação de ídolos hoje tenha ficado tão rápida que se torna descartável para os fãs dando lugar ao produto a ser vendido.

Motivos como esse, justificam o fato que a recente morte do ator Heather Ledger, jamais terá a comoção que teve, por exemplo, a morte de James Dean. Nos dias de hoje, Hollywood, tenta por fim revitalizar seus primeiros ícones descartáveis: Rambo, Indiana Jones, Rocky entre outros que com certeza ainda virão, como Garotos Perdidos e Tron. Porém nenhum desses saiu da esfera estritamente nostálgica daqueles que o consumiram em sua infância, tanto que Rambo hoje está apenas engraçado de um jeito triste, Rocky, decrépito e Indiana Jones já parece mais velho que seu pai, ou seja, já não convencendo como ícones, operando apenas como um back to the 80’s.

Pelo contrário, Elvis, Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Clark Gable James Stewart, Grace Kelly, John Wayne, além do próprio James Dean e Humphrey Bogart, tornaram-se ícones independentes de suas personagens, a tal ponto que na imaginação do fã, um e outro tornam-se o mesmo.

O próprio Humphrey Bogart foi o símbolo de uma geração: apesar de feio, magrelo, calvo e fumante inveterado, tornou-se um dos maiores sex-symbols do cinema, (segundo o próprio, por conta de sua personalidade, coisa quase impossível de se imaginar acontecer por esses tempos). Bogart juntamente com Marlon Brando tornaram-se os ícones do “macho-rebelde-mas-com-estilo”, daqueles que conquistavam suas amantes com um olhar ou com um tabefe (sem violência, é claro), e que sabiam ser doces, porém conservavam a masculinidade dos homens fortes dos quais segundo Luís Fernando Veríssimo, Clint Eastwood é o último exemplar.

No filme Casablanca, que por si só já um ícone do cinema, Bogart interpretou talvez seu papel mais marcante: Rick Blaine, o dono do bar Rick’s em Casablanca que era o ponto de fuga da Europa em guerra. Porém poucos se lembram desse nome, ou seja, era Bogart que estava lá.

O filme se fixou tanto na cultura popular que até os dias de hoje a música As Time Goes By já gravada por dezenas de intérpretes remete logo ao filme e a imagem de Dooley Wilson a executando. Além é claro da frase “Play it Again, Sam” que tomou vida própria na massa e se transformou em jargão nostálgico. Digo que tomou vida própria, porque a frase em momento algum é dita no filme.... Coisas de ícones.

Mas o assunto de hoje não é Casablanca, mas a expansão destes ícones. O que nos leva, agora sim, ao filme discutido.

30 anos depois do lançamento de Casablanca, Woody Allen havia escrito uma peça teatral chamada justamente: Play it Again, Sam, que ele mesmo reescreveu para o cinema e entregou para o amigo Herbert Ross dirigir. No Brasil chamaria-se Sonhos de um Sedutor.

O texto de Allen conta a história de Allan Felix (interpretado por ele mesmo), um crítico de cinema que está sendo largado pela esposa que reclama dizendo que Allan é um mero “espectador da vida”. Um casal de amigos (Tony Roberts e Diane Keaton) tenta ajuda-lo a recomeçar sua vida e conquistar um novo amor. O problema é que Allan não leva o menor jeito com as mulheres: é tímido, não bebe, é viciado em aspirinas, e justamente por isso, seu alter-ego que lhe aparece como uma sombra quase fantasmagórica é justamente Humphrey Bogart (interpretado com maestria por Jerry Lacy, pois o verdadeiro já havia falecido em 1957). É “Bogart” quem lhe dá as dicas de como conquistar as mulheres, ou seja, de como se tornar esse “macho-alpha” o que no corpo de Woody Allen rende piadas só igualadas por este em Annie Hall e Manhattan.

Sonhos de um Sedutor consegue inserir-se no fascínio por esses ícones que ditaram as falas, o andar e a maneira de encarar a vida de várias gerações em contraste com os anos 70 no caso, e com o humor de Woody Allen nos seus melhores momentos, fazendo parceria pela primeira vez com Diane Keaton, dando aquele ar inevitável de nostalgia mesmo já denunciando a atração doentia pelos ídolos, porém sem ter que parar a sessão para tentar empurrar-lhe uma coca-cola obsessão adentro.

Tem suas ironias, pois Woody Allen faz parte da trupe que também se tornou símbolo, sendo que os óculos de aro grosso são tão icônicos como a silhueta de Hitchcock, e justamente esses podem reconfigurar uma espécie de retorno aos ídolos, mas é lógico que do jeito moderno. Ao invés de calçada da fama podemos quem sabe ver uma homenagem a Woody Allen no parque de diversões, ou quem sabe ainda um Mac Lanche Stallone com muito colesterol ou ainda o já em construção Big Kahuna Burguer, a lanchonete que era fictícia na época que estreou Pulp Fiction.

Os ícones estão à venda. Quem dá mais?

Sonhos de um Sedutor será exibido neste sábado dia 12/04 às 19:30No SESC Cineclube Silenzio com entrada franca.

1.4.08

05/04 - Tesis - Morte ao Vivo (Alejandro Amenábar)

Neste Sábado dia 05/04 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



TESIS - MORTE AO VIVO (Tesis - Espanha - 1996 - 125 min)
Direção: Alejandro Amenábar.
Elenco: Ana Torrent, Fele Martínez, Eduardo Noriega.
Sinopse: "Tese" conta-nos a história de Angela, uma estudante de cinema que está preparando uma tese sobre a violência no cinema e procura material áudio-visual sobre a matéria. Pouco a pouco vai se metendo de cabeça no que parece ser uma trama relacionada com os "snuff movies" (filmes que são feitos com assassinatos reais) e no quais podem estar implicados colegas de faculdades e professores. Angela contará com a ajuda de Chema, um estudante marginal que sente uma atração pelo pornô, pelo cinema gore e pelos filmes sangrentos


**********************************************************************


O Trotuaro da Violência *

Vander Colombo

Imagine o seguinte caso: você está passeando de carro nas ruas tortas e remendadas de Cascavel, de repente, o trânsito num dia comum se torna mais lento. Lá na frente você vê um pequeno grupo de pessoas paradas no meio da rua, há um carro com placa de fora que mais parece um nó de aço retorcido, há sangue no chão. Vamos deixar mais claro: você agora já sabe que é uma colisão e sabe que não conhece as vítimas, posto os veículos envolvidos. Ah e mais! A ambulância está logo atrás de você com dificuldades para passar. Queira ou não você vai se ver num dilema: ou diminui a marcha para ver melhor, atrasando o socorro, ou vai parar o carro e sair para ver de perto, impossibilitando de vez tal socorro, embora utilize o mote: “talvez eu pudesse ajudar em algo”.

Isso vai ser egoísta da sua parte? É lógico que vai! Mas você geralmente faz sem maldade. Essa curiosidade mórbida, apesar de já estudada antropologicamente, ainda nos é mistério, já que jamais admitimos: ok, gostamos de ver sangue e violência.

Se fosse o contrário, filmes de terror não teriam lucro, tablóides empilhariam na banca, programas como Ratinho, Aqui Agora, Tribuna da Massa, e outras centenas não teriam audiência, assim como Big Brother e Pânico na TV. Os dois últimos não são propriamente violentos em seu grafismo, porém os episódios que trazem algum tipo de degradação ou humilhação humana não são os de maior repercussão?

Sangue e esperma em geral se tornam um só em casos assim. Ambos são substâncias corpóreas que só saem do corpo em momentos extremos.

Ok, o exemplo é radical, mas funciona, o que atrai na pornografia extrema, por exemplo, provém da mesma curiosidade que atrai à violência explícita.

O cinema já usou e muito essa premissa para filmes de grande bilheteria como A Bruxa de Blair, Instinto Selvagem, O Último Tango em Paris, A Paixão de Cristo; este que por sua vez consegue provar qualquer teoria do gênero, sendo o filme mais bem recebido por cristãos do mundo todo e que têm como lema a paz e a fraternidade; tema que o torna por outro lado um dos filmes mais maniqueístas e de violência extrema e a oitava maior bilheteria de todos os tempos, logo abaixo de Jurassic Park, desta vez com a desculpa: “mas foi assim que aconteceu...”. Esse mesmo mote justificaria todos os programas policiais que mostram em close, cadáveres expostos na rua ou linchamentos filmados. No caso de A Paixão de Cristo, porém vai mais longe, visto que toda a mensagem pacífica cristã nem mesmo é citada no filme, que se concentra nas 12 horas finais de Jesus. Segundo o assassino Alex do filme Laranja Mecânica “a parte boa da bíblia”.

O cinema, porém através da metalinguagem muitas vezes já discutiu o assunto com maestria em filmes como Violência Gratuita, O Vídeo de Benny e em nossa sessão desta semana: Tesis – Morte ao Vivo.

Tesis foi o primeiro longa do chileno naturalizado espanhol Alejandro Amenábar que mais tarde fez um filme chamado Abra los Ojos, que Tom Cruise gostou tanto que pediu a refilmagem americana como Vanilla Sky, e em troca financiou o único filme de Amenábar até agora em terras yankees: o sucesso Os Outros. Voltando à Espanha, filmou Mar Adentro em 2004 ficando com o Oscar de filme estrangeiro.

Amenábar tinha apenas 24 anos quando fez Tesis, porém conseguiu discutir com maturidade o fascínio pela violência. No filme Ângela decide fazer sua tese no curso de Comunicação sobre violência no audiovisual, para isso pede que seu orientador lhe consiga filmes que contenham violência extrema. Ângela desde o começo diz-se enojada pelo tema, porém mesmo contra sua vontade, sua curiosidade torna-se mais forte que suas concepções morais. A exemplo disso, a cena inicial do filme metaforicamente expõe sua própria tese sobre o assunto: Ângela está no metrô, quando é pedido a todos que saiam do vagão pois um homem havia caído nos trilhos e sido cortado ao meio. Os policiais vão orientando os passageiros a saírem, para afastarem-se e não olhar para os trilhos, isso é repetido algumas vezes, porém enquanto alguns se afastam, Ângela é instintivamente puxada para ver o corpo. O filme todo parte desse principio: “não olhe, se conseguir”.

A discussão dentro da própria linguagem cinematográfica é resumida por um professor quando este diz que “é preciso dar ao público o que ele quer ver”. Essa simples frase apesar de não discutida ou questionada explicitamente no filme abre uma discussão sem fim sobre a produção dos filmes que já citamos e de que forma eles servem à população, que de uma maneira ou de outra irão buscar / ver / consumir esse sangue derramado.

Em cima dessa frase, seria pretensioso se Amenábar fizesse um filme de arte, soaria no mínimo como um sermão sobre moral visual. Desta forma ele o transforma num thriller de suspense e no melhor filme sobre a lenda dos “snuff movies” que são vídeos onde se vê uma pessoa sendo morta propositalmente em frente às câmeras. Apesar do tema já ter rendido vários filmes, desde Cannibal Holocaust a 8mm, a existência de algum snuff nunca foi oficialmente comprovada.

Por conta disso, o curioso dessa área não tem tanto acesso quanto um consumidor de pornografia, por exemplo. A ficção é o que acaba fazendo essa parte, e o espectador, mesmo sabendo que se trata de encenação, consome a violência, nas palavras de Rose Hikiji, “como um olho a espreitar a fechadura”. Porém o nível de realidade exigido por esse consumir tem crescido à passos largos, tanto que filme que outrora chocavam como Laranja Mecânica, Amargo Pesadelo, Quadrilha de Sádicos, já não têm o mesmo efeito, abrindo espaço para filmes que não mais questionam o fascínio, e acabam somente o satisfazendo, como por exemplo: Irreversível; O Albergue; e os exercícios de morbidez nipônica, a série Guinea Pig que encena snuffs.

Os cinemas cascavelenses por outro lado são redutos do consumo desse fascínio, porém em seu viés politicamente-correto, seja James Bond, Rambo, Van Damme, e o já tão falado Tropa de Elite, atendem ao mesmo chamado da violência explícita, porém utilizando do artifício maniqueísta de estar sempre do lado do bem. Nestes, a violência por mais absurda que seja, sendo direcionada a alguém por quem durante duas horas lhe foi convencido que a merecia, é automaticamente abrandada.

É lógico que não vou generalizar. Vez ou outra, nossos cinemas tem exibido filmes que saem dessa categoria, todavia em grande parte das vezes tem menos espectadores que aquele acidente de trânsito.

“Tesis – Morte ao Vivo” será exibido no SESC Cineclube Silenzio

neste sábado dia 05/04 às 19:30hrs no SESC Cascavel.

A entrada é gratuita...

e livre a todos os curiosos.




Texto publicado na Gazeta do Paraná de Domingo (30/03) Caderno Gazeta Alt todos os domingos




24.3.08

29/03 - Feios, Sujos & Malvados (Ettore Scola)

Neste Sábado dia 29/03 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA






Vencedor do Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Feios, Sujos e Malvados é uma das obras-primas do cineasta Ettore Scola (Um Dia Muito Especial). Giacinto (Nino Manfredi em grande atuação) mora com a esposa, os dez filhos e vários parentes, num barraco de uma favela de Roma. Todos querem roubar o dinheiro que ele ganhou do seguro, por ter perdido um olho quando trabalhava. A situação fica ainda pior quando ele decide levar uma amante para dentro de casa. Feios, Sujos e Malvados é uma comédia social corrosiva, em que Scola dialoga, de maneira brilhante, com Accattone - Desajuste Social, de Pasolini.
Vencedor do Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes

TÍTULO: FEIOS, SUJOS E MALVADOS
DIRETOR: Ettore Scola
ARTISTAS: Alfredo D'Ippolito | Maria Bosco | Marina Fasoli | Giancarlo Fanelli | Nino Manfredi | Marco Marsili | Franco Merli | Ettore Garofolo | Francesco Anniballi | Giselda Castrini
IDIOMA: Italiano
PAÍS DE PRODUÇÃO: ITALIA
LEGENDA: Português
TÍTULO ORIGINAL: BRUTTI, SPORCHI E CATTIVI
TEMPO DE DURAÇÃO: 115 minutos



*********************************************************************



Feios, Sujos e Malvados

Vander Colombo

“Tudo é política, até mesmo o desenho mais inócuo da Disney”

A frase é de Ettore Scola um dos maiores diretores italianos de todos os tempos e um dos mais desconhecidos por estes lados. Scola costuma definir seus filmes como “o reflexo da formação do jovem meridional que eu era, vindo a Roma depois de ter tido contato com marginais e oprimidos”. Percebe-se aí um espírito que é comum em quase todos os cineastas, pais ou filhos do neo-realismo italiano: o revolucionário de esquerda. Antes que se crie uma redoma protetora a esse sentido moldada por preconceitos e jornalismo marrom de colunistas de meia-pataca de Revista Veja e afiliados, há de se lembrar que a sinistra deles não é a mesma que a nossa, mas os ideais de prevalecimento vindo de que lado forem, esses sim foram importados na íntegra com nossos imigrantes.

Vindo eu de família italiana, daquelas onde italianos casam com italianos para terem italianinhos, dou-me ao direito de fazer essa comparação tendo em base conversas sussurradas ou bradadas, ou mesmo quando o elixir de Baco - próprio dos vinhedos da migração, - sobe um pouco a cabeça; lembrando é claro que em primeiro lugar, o que segue não tem intuito de ser ofensivo à qualquer família italiana, posto que faz parte dessa raiz meridional já citada e não difere em nada das alemãs por exemplo, que povoam quase que inteiramente pequenas cidades vizinhas, e não deve ser vista como generalização; lembrem-se por exemplo, de que o nazi-fascismo dominou as duas terras como regra por vários anos, e da mesma maneira que muitos aqui no Brasil ainda idolatram Getúlio Vargas como se fosse um herói nacional, muitos destes seja por uma espécie de alienação histórica ou por nacionalismo genético, têm sentimentos nostálgicos por tempos passados.

Feios. (Referência no geral aplicada aos nordestinos de classe baixa, ou muitas vezes ampliada aos não-caucasianos)

Ettore Scola, deu luz ao filme Feios, Sujos e Malvados (Brutti, Sporchi e Cattivi, 1976), na época em que o cinema italiano, a despeito da renascença pós neo-realismo organizada principalmente por Fellini, mostrava um mundo utópico de classe média-alta, onde se interagia com a classe baixa somente no âmbito de empregados felizes e fiéis – como visto nas telenovelas, isso após um período cinematográfico que auxiliou no renascimento da Itália após a derrota da direita fascista na Segunda Guerra, irritou e muito a geração dos neo-realistas e seus pupilos.

Sujos. (Vide Feios. Adjetivo usado para justificar pigmentação da derme e colorir as peles dos não-europeus, usado também para os barracos de favelas ou qualquer bairro fora das áreas nobres)

É preciso lembrar que o período cinematográfico apesar da renascença não era dos melhores: Vittorio de Sica e Luchino Visconti haviam falecido em 74 e 76 respectivamente, Pasolini havia sido assassinado em circunstâncias misteriosas um ano antes, Rosselini estava em seus últimos dias e as metáforas de Fellini estavam cada vez mais complexas. Aos poucos, a geração que tanto havia incomodado os fascistas estava desaparecendo ou se remodelando. Era preciso desta vez algo que não só criticasse o mal declarado, mas o oculto dentro da própria Itália pós-guerra.

Malvados. (Vide Feios e Sujos. Adjetivo de uso amplo e múltiplas variações (velhacos, ladrões, invasores, pecadores, vagabundos, punks etc) serve como aplicação desde marginais de pequeno a médio porte, porém restringe-se a eles, até designações de fundo religioso, mais especificamente tudo o que não seja”vaticanizado” ou fora das tradições judaico-cristãs. Alheios à tradição, família (patriarcado), proteção de propriedade e nacionalismo).

Scola resolveu então não somente criticar a forma como a Itália queria aparentar, porém mais do que isso, uma alegoria de como as classes abastadas viam as menos favorecidas. Para isso abusou do humor-negro, da escatologia e da violência para mostrar como, segundo os “belos, límpidos e bonzinhos” seria a vida dos “feios, sujos e malvados”. Para isso dialoga com o primeiro filme de Pasolini, Accattone – Desajuste Social, e nos apresenta um lado paupérrimo da Itália, onde dezenas de pessoas vivem numa pequena casa, tal qual ratos amontoados, fornicando, tramando a morte do patriarca que esconde o dinheiro do seguro que recebeu após furar o próprio olho e extorquindo a avó que é a única que recebe algum dinheiro com a aposentadoria.

Com este lado obscuro da Itália, Scola não só critica a visão deturpada das classes como também questiona um dos maiores slogans do fascismo e que é usado até hoje, “Deus, Pátria e Família”

Scola mostra também aos fanáticos de esquerda que ser engajado, como manifestação revolucionária apenas, é tão utópico quanto o cinema que criticavam. E sem apontar caminhos, mostrar heróis, ou pregar uma filosofia vã com palavras intelectualmente masturbatórias em prol de um povo que muitas vez nem mesmo sabe ler, o diretor usa-se de fábulas para derrubar seus detratores, usa o humor como arma máxima contra a ignorância e encerra o filme com uma das imagens mais explicitamente reveladoras, questionadoras e tristes da história do cinema, tudo para que simplesmente se abram dimensões novas para se poder pensar, ao invés de dizer que determinado caminho é o correto. Se funcionar em 10% dos casos, o cinema já é uma utilidade pública indispensável.

“Um filme não tem o poder de mudar uma realidade,

mas pode convidar ao questionamento".

Ettore Scola

O filme “Feios, Sujos e Malvados” (Brutti, Sporchi e Cattivi, ITA, 1976) será exidido no SESC Cineclube Silenzio neste sábado dia 29/03 no SESC Cascavel

A entrada é gratuita.

11.3.08

15/03 - Jesus de Montreal (Denys Arcand)

Neste sábado dia 15/03 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA
“A Paixão segundo Arcand”

Vander Colombo

Não sou muito religioso, mas tem algo na figura de Jesus que me atrai, talvez seja a mensagem, que não tinha nada a ver com o que muita gente usa para defender valores e morais políticos como família e propriedade, sendo que talvez ainda uma releitura moderna dessa figura trouxesse luz ao assunto. Foi o que Arcand tratou de fazer. O diretor Denys Arcand virou uma figura pop de uma hora para outra fora do Canadá quando em ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “As Invasões Bárbaras”. Justiça seja feita, o filme é a perfeição do drama anti-pieguice e uma obra de coração imenso. Mas Arcand já era conhecido no underground por obras como Amor e Restos Humanos, Gina, O Declínio do Império Americano (que graças ao Invasões Bárbaras, ganhou relançamento) e na opinião de muitos, pela sua obra prima Jesus de Montreal.
Arcand também ficou famoso pelos temas controversos tratados com extrema maestria e naturalidade em seus filmes, seja apresentando a heroína como analgésico para o câncer em Invasões Bárbaras, seja mergulhando na vida sexual da intelectualidade ocidental em O Declínio...
Aliás, conta-se que foi durante a pré-produção de O Declínio do Império Americano que a idéia de Jesus de Montreal nasceu. Arcand fazia teste de elenco e descobriu que um dos atores assumia durante o dia o trabalho em comerciais televisivos e à noite ensaiava uma peça sobre a Paixão de Cristo. Essa contradição entre valores versus comercialismo gerou as primeiras idéias para o filme.
O enredo de Jesus de Montreal conta a história de Daniel Coulombe, diretor renomado do teatro marginal canadense que é convidado por um amigo sacerdote a re-montar a Paixão de Cristo, antiga peça da catedral há décadas parada. Daniel aceita, porém, ao invés de se basear nos evangelhos como verdade suprema, busca nas descobertas científicas arqueológicas o contexto para encenar sua obra. O resultado é um total sucesso de público e crítica, levantando, contudo, contra si, toda a ira da Igreja. Conforme lutam para continuar exibindo a obra, Daniel e o elenco formado por atores desempregados mesclam-se cada vez mais à história de Jesus.
O fato de apresentar Jesus como filho bastardo de um soldado romano com Maria, já seria motivo bastante para os religiosos fanáticos de plantão organizarem aqueles piquetes chatos nas portas dos cinemas. Porém Arcand deixou uma armadilha perceptível no filme que faria qualquer detrator religioso da saga de Daniel em peso igual aos daqueles que na Bíblia gritavam: “Crucifica-o!”. Ao recontar a história cristã, Arcand coloca a fúria da Igreja Católica montrealense como sinônimo da fúria dos judeus ao ouvir Jesus defender prostitutas e samaritanos em nome de Deus e isso tudo na qualidade de ser filho do cara. As declarações de Jesus segundo a Bíblia foram consideradas heresias na época, da mesma forma que as do filme hoje o são. Por essas e outras coisas o roteiro é amarrado tão perfeitamente que vai da concepção à ressurreição sem sair do caráter humano, dando tapas de pelica em várias gerações. Sendo assim, o filme ao invés de ser massacrado pelos cristãos, acabou sendo adorado e estudado por esses. Conseguindo o feito de “agradar a todos” onde até as máximas dizem que para outros era impossível. Ateus e religiosos se unem no discurso de Jesus de Montreal por um simples fato: não importa a crença ou não no etéreo, mas algumas daquelas palavras. Essas são inquestionáveis.
Muitos filmes erraram feio ao retratar Jesus na tela grande (por exemplo a bobagem sanguinária “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson que mais parece ter voltado aos tempos dos espetáculos do Coliseu), outros foram superficiais e nada inovadores, como o de Zefirelli e a enxurrada desses que passam na TV em datas religiosas, porém apenas dois conseguiram ultrapassar a fé cega, inovando e se aprofundando justamente no complexo turbilhão shakespeareano de culpa, medo, dúvida e diversos outros conflitos. Um deles é “O Evangelho Segundo São Mateus” de Pasolini e o outro é o próprio filme de Denys Arcand, que apesar de se passar nos dias de hoje consegue algo que nem o evangelho como foi escrito conseguiu, ser elucidatório. Alguém pode até perguntar: “E o “A Última Tentação de Cristo” de Scorsese?” Mas convenhamos que assim como Je Vous Salue Marie de Godard, é mais controvérsia do que cinema.
Assim, Daniel e seus apóstolos partem na cruzada que poderia ser a de libertar a arte da dramaturgia (que tem por templo o próprio teatro) da mediocridade comercial. E dessa forma, o polêmico Arcand, reconta o único testamento fora da Bíblia que têm sido estudado por religiosos, o que, diga-se de passagem, é uma conquista digna de lembrança, até para lembrarmos qual era mesmo a mensagem, antes de ser deturpada por televangelistas, fanáticos, moralistas, pastores e clérigos carreiristas, que muitos de nós gostaríamos de ver sob a chibata na famosa cena da expulsão dos vendilhões do templo.


O filme Jesus de Montreal será exibido no SESC Cineclube Silenzio, no dia 15/03 às 19e 30hrs no SESC Cascavel, com entrada franca.

5.3.08

08/03 - O Balconista (Kevin Smith)

Neste Sábado Dia 08/03 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

Devo avisar que “O Balconista” é um filme nerd por excelência, mas isso não é uma coisa ruim. Todos os filmes de Tarantino e Brian de Palma o são, assim como outros tal Alta Fidelidade, Swingers, e a consagrada trilogia western de Sérgio Leone.

Chama-se filme nerd, o chamado cinema pós-moderno no quesito olhar para o próprio cinema com olhar de cinefilia, além é claro, de muitas referências ao que veio antes. Em muitos casos não só no cinema, mas na cultura pop de um modo geral, música, teatro, literatura, quadrinhos e o que mais lhe for de agrado.

Kevin Smith já era fã da arte seqüencial, tanto que para conseguir fazer esse filme, ele teve que vender parte de sua coleção de quadrinhos e conseguir dinheiro com parentes e amigos para totalizar US$ 27 mil. Pediu emprestada a própria loja de conveniência onde ele trabalhava para ser o cenário de 90% do filme e juntou amigos que nunca tinham atuado (inclusive sua própria mãe) para formar o elenco do filme.

O resultado agradou tanto que a pós-produção catapultou para US$ 230 mil sendo em boa parte gasto na liberação da trilha sonora que tem nomes como Bad Religion, Alice in Chains e Soul Asylum.

A história se passa em 24 horas ou aproximadamente isso na vida de Dante Hicks e Randal, o primeiro é o balconista de uma loja de conveniências, seria seu dia de folga, mas para fazer um favor ao patrão ele vai trabalhar; Dante é o atendente exemplar, agüenta as humilhações feitas pelos clientes com paciência, seguindo o princípio de que “o cliente tem sempre razão” e a filosofia "Eu não incomodo os clientes e eles não me incomodam.". Randal é o atendente de uma vídeo-locadora ao lado da loja de Dante, Randal é o oposto de Dante, maltrata os clientes física e psicologicamente, antes que eles possam pensar em fazer o mesmo, seguindo este, como filosofia o próprio slogan do filme: "Não é porque eles servem você que eles gostam de você", como na cena que ele faz um pedido de vários filmes pornô com títulos escabrosos enquanto a mãe espera com o filho a localização de um filme infantil.

O Balconista foi filmado em 16mm preto-e-branco, com quase sua totalidade de planos fixos e não muito abertos o que lhe concede uma estética mezzo curtametragem, mezzo peça teatral. Mas apesar de falar sobre tédio, jamais se torna chato, com diálogos afiadíssimos, piadas politicamente incorretas e uma desconstrução fantástica da geração de seus 20 e poucos anos que ao mesmo tempo em que parece só se preocupar com drogas e sexo também se vê encurralada pela falta de expectativa profissional.

Falando em drogas, foi justamente neste filme em que uma dupla que mais tarde se tornaria famosa e voltaria a aparecer em todos os filmes de Kevin Smith, deu as caras pela primeira vez, Jay (Jason Mews) e Silent Bob, ou Bob Calado (interpretado pelo próprio diretor). Aqui eles são traficantes que para o desespero de Dante, fazem ponto justamente em frente à loja de conveniências.

É um filme onde o excelente humor reside justamente no mau humor de seus personagens, sem jamais ser superficial. Apesar de ser um filme onde há piadas sobre sexo e morte (ótimas piadas, que se diga de passagem, longe de besteróis como American Pie), há um paralelo erudito, como é o caso da constante referência com A Divina Comédia já no nome do personagem principal e na divisão do filme em nove capítulos, anunciando os nove ciclos do inferno, nesse caso um dia no inferno dos balconistas.

E o melhor de tudo em O Balconista, é a demonstração quase epistemológica que como já dizia Godard com o aval de gente como Pasolini, Rossellini e Vittorio De Sica: “só o amadorismo pode salvar a arte”. Em tempos onde os “DRT’s” importam mais que o talento, o elenco do filme, que jamais havia atuado antes, dá um aula de naturalismo e domínio de texto que deixaria qualquer Tom Cruise e Ben Affleck com vergonha. É uma extensão de tudo o que vemos na arte, onde um papel que lhe diga que você é um artista, raramente ou nunca, o tornará um.

**********************************************************************************

O Balconista (Clerks., 1994)
Direção: Kevin Smith
Roteiro: Kevin Smith
Gênero: Comédia/Drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 92 minutos
Tipo: Longa
Site:
clique aqui



Sinopse:
O filme que lançou Kevin Smith à fama é uma visão do mundo pop adolescente: ele mostra um dia na vida de dois balconistas, Dante e Randal, e suas discussões banais sobre filmes, mulheres e outras casualidades.



Elenco ::.

- Ator/Atriz Personagem
- Brian O'Halloran Dante Hicks
- Jeff Anderson Randal Graves
- Marilyn Ghigliotti Veronica Loughran
- Lisa Spoonhauer Caitlin Bree
- Jason Mewes Jay
- Kevin Smith clique para ver o perfil Silent Bob
- Scott Mosier Vários personagens
- Walter Flanagan Vários personagens

24.2.08

01/03 - Amadeus - Versão do Diretor (Milos Forman)

Neste Sábado dia 01/03 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA


Título Original:
Amadeus

Gênero: Drama

Tempo de Duração: 158 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1984
Estúdio: Orion Pictures Corporation
Distribuição: Orion Pictures Corporation
Direção: Milos Forman
Roteiro: Peter Shaffer, baseado em peça de Peter Shaffer
Produção: Saul Zaentz
Música: John Strauss
Direção de Fotografia: Miroslav Ondrícek
Desenho de Produção: Patrizia von Brandenstein
Direção de Arte: Karel Cerny
Figurino: Theodor Pistek
Edição: Michael Chandler e Nena Danevic

seta3.gif (99 bytes) Elenco

F. Murray Abraham (Antonio Salieri)
Tom Hulce (Wolfgang Amadeus Mozart)
Elizabeth Berridge (Constanze Mozart)
Simon Callow (Emanuel Schikaneder)
Roy Dotrice (Leopold Mozart)
Christine Ebersole (Katerina Cavalieri)
Jeffrey Jones (Imperador Joseph II)
Charles Kay (Conde de Orsini-Rosenberg)
Kenny Baker (Comendador)
Lisabeth Bartlett (Papagena)
Barbara Bryne (Frau Weber)
Martin Cavina (Jovem Salieri)
Roderick Cook (Conde Von Struck)
Milan Demjanenko (Karl Mozart)
Peter DiGesu (Francesco Salieri)



seta3.gif (99 bytes) Sinopse
Após tentar se suicidar, Salieri (F. Murray Abraham) confessa a um padre que foi o responsável pela morte de Mozart (Tom Hulce) e relata como conheceu, conviveu e passou a odiar Mozart, que era um jovem irreverente mas compunha como se sua música tivesse sido abençoada por Deus.



- Ganhou 8 Oscars, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (F. Murray Abraham), Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Som e Melhor Roteiro Adaptado. Recebeu ainda outras 3 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Ator (Tom Hulce), Melhor Fotografia e Melhor Edição.

- Ganhou 4 Globos de Ouro, nas seguintes categorias: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator - Drama (F. Murray Abrahams) e Melhor Roteiro. Recebeu ainda outras duas indicações, nas seguintes categorias: Melhor Ator - Drama (Tom Hulce) e Melhor Ator Coadjuvante (Jeffrey Jones).

- Ganhou 4 BAFTAs, nas seguintes categorias: Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Maquiagem e Melhor Som. Foi ainda indicado em outras 5 categorias: Melhor Filme, Melhor Ator (F. Murray Abraham), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Figurino e Melhor Direção de Produção.

- Ganhou o César de Melhor Filme Estrangeiro.

- Ganhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Contribuição Artística no Festival Internacional de Flanders.



seta3.gif (99 bytes) Curiosidades
- O ator Mel Gibson chegou a fazer testes para interpretar Mozart em Amadeus.


- O nome Amadeus, que é o nome do meio de Mozart, significa "Amado de Deus". A escolha desta palavra como sendo o título do filme se deve à uma correlação feita com a convicção de Salieri de que Mozart era abençoado por Deus ao compôr suas músicas.


- Vários acontecimentos da vida real de Mozart foram incluídos no roteiro de Amadeus, como seu encontro quando criança com Maria Antonieta.


- Todo o filme foi rodado sob luz natural.



*****************************************************************************************************************

Daylight, Câmera, Ação.

Amadeus (1984) de Milos Forman

É preciso começar já fazendo um adendo. Quando o amigo Anderson Costa me convidou a escrever esse artigo, citou-me o fato do filme Amadeus de Milos Forman sobre a vida de Wolfgang Amadeus Mozart ter sido filmado com luz natural. Como fazia muito tempo que havia visto o filme a afirmação me pareceu inverossímil já que o filme é extremamente luminoso. Neguei na hora, mas o fato ficou me incomodando, o que me fez minutos depois sentar em frente ao DVD e revê-lo. Pasmem! Com um olhar mais clínico é possível ver que tal como Barry Lyndon de Stanley Kubrick, Amadeus também foi feito com luz natural, o que o torna ainda mais peculiar entre os filmes americanos, até porque conseguiu com extrema eficiência corrigir alguns problemas de iluminação de seu precursor filmado quase dez anos antes.

O filme foi fruto de gerações de obras, primeiro foi uma peça chamada Mozart & Salieri de Aleksandr Puchkin, esta peça tornou-se uma ópera adaptada por Rimsky-Korsakov que por sua vez tornou-se novamente uma peça já com o nome Amadeus (que é o nome do meio de Mozart e significa Amado por Deus, o que Salieri justifica dizendo que Mozart foi o escolhido divino para a música em detrimento dele próprio) escrita por Peter Shaffer que também foi roteirista do filme. Vê-se então que muita pesquisa foi feita antes do filme chegar às telas, mas não é por isso que ele se calca na realidade, pelo contrário, como a história de Mozart assim com a de Antonio Salieri, é formada quase que por páginas em branco devido ao não-registro de época, permitiu-se ao roteiro preencher as lacunas das misteriosas biografias dos dois compositores com maestria, isso acabou gerando alguns protestos da comunidade artística principalmente no que se refere a Antonio Salieri.

Em noite de Oscar não se pode deixar de lembrar que o filme faturou oito estatuetas na época (filme, direção, ator (F. Murray Abraham), direção de arte, figurino, maquiagem, som e roteiro adaptado). Hoje já se sabe que o prêmio da Academia não reflete necessariamente a qualidade artística de uma obra, mas qualquer festival que se preze teria concedido a Amadeus todos esses e outros prêmios. É difícil explicar o efeito causado pelo filme, mas pode-se verificar que nenhum filme de época foi tão moderno e nenhum filme sobre música feito depois deste, escaparia da comparação e da preferência pelo primeiro.

E há uma trindade que certifica à Amadeus, a qualidade de ser sagrado, a primeira das forças com toda a certeza é o uso da música de Mozart. Raramente se viu a trilha sonora tornar-se indiscutivelmente um personagem que permeia a história de tal forma que é impossível imaginar-se um sem o outro (quem já viu sabe que nunca, depois do filme, poder-se-á ouvir ao Réquiem (K. 626) sem lembrar-se da partitura sendo ditada).

A segunda delas é a interpretação da dupla central. Tom Hulce deu vida a Mozart, tanto que quando se pensa no compositor, lembra-se de sua atuação, infelizmente (pra ele) o personagem ficou tão atrelado que Hulce nunca mais voltou a fazer um papel à altura, o mesmo aconteceu com Frank Murray Abraham que fez uma atuação quase espírita como Salieri, creio que nunca se viu um ator com tamanha segurança em diversas fases da vida de um personagem (em especial na velhice de Salieri quando este narra a história do filme). Resultado: Hulce apesar da excelente atuação acabou ofuscado pelo Salieri de Abraham que levou um caminhão de prêmios pra casa e construiu um dos vilões mais tridimensionais da história do cinema, porém teve todos os papéis futuros sempre ligados ao do compositor italiano. O que vemos então para deleite dos espectadores é um duelo incessante de interpretações com “Salieri” levando uma pequena vantagem em relação a “Mozart”, conseguindo assim na disputa de interpretação, uma originalidade sem par para a rivalidade de seus personagens.

E a terceira força é o próprio Milos Forman, que refugiado nos EUA volta à sua terra natal para filmar Amadeus conseguindo um resultado que só tem comparativo em sua carreira com “Um Estranho no Ninho”. Possivelmente um Amadeus sem a batuta milimétrica e sensível de Milos Forman, acabaria se tornando uma coleção de clichês maniqueístas que culminariam em “mais um daqueles filmes de época” sem graça, sem alma, sem sentido de existir como muitos filmes das mesmas bandas. E assim como Mozart e Salieri em Viena, havia Forman e Kubrick nos EUA, disputando uma saudável rivalidade, seja Kubrick trazendo Jack Nicholson para O Iluminado após ver Um Estranho no Ninho, seja Milos Forman fazendo um espetáculo em luz natural ou daylight após ver Barry Lyndon.

Amadeus Versão do Diretor será exibido no SESC Cineclube Silenzio no sábado dia primeiro de março (01/03) com sessão iniciando às 19:30h.

Vander Colombo

22.2.08

23/02 - Dançando no Escuro (Lars Von Trier)

Neste Sábado 23/02 às 19:30h
No Sesc Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



Dançando no Escuro se passa em 1964 e conta a história de Selma, interpretada por Björk, imigrante do Leste Europeu que vai para os Estados Unidos acompanhada de seu filho. Portadora de uma doença hereditária que a deixará cega em pouco tempo, Selma trabalha dia e noite com um só objetivo: poder pagar uma cirurgia para o filho, que sofre do mesmo mal. A paixão por filmes musicais torna-se a única válvula de escape da pobre moça em sua vida tão difícil
A produção intercala o eixo narrativo principal com números musicais, que são devaneios da personagem central. Mesmo em momentos de extrema tensão, Selma se aliena do que está a sua volta e brilha em grandiosos espetáculos imaginários, muito bem realizados pela atriz principal e pelo diretor. As coreografias estão bem feitas e as músicas são primorosas, contando com o toque especial da harmoniosa e pungente voz de Björk.
A cantora está simplesmente perfeita no papel. Encarna a personagem mantendo-se verossímil do começo ao fim, encantando e comovendo o público. Revela-se uma artista completa: além de ter uma voz singular, provou ser uma brilhante atriz, o que lhe rendeu o Globo de Ouro e um prêmio em Cannes. Sem dúvida, merecidos.
A direção de Lars von Trier se priva de tecnologia. O longa-metragem foi filmado em câmera digital, pelas mãos do próprio diretor. Ainda assim, tem uma bela fotografia, especialmente nas cenas dos espetáculos. Por ser longo e com pouca ação, Dançando no Escuro exige certa paciência do público. É denominado um filme de arte, ou seja, a maioria das pessoas o acha enfadonho.
A crítica aos Estados Unidos é clara na película. Selma, que foi para o país em busca de uma solução para seu problema, é explorada e acaba tendo um fim trágico. Poucos não irão se revoltar e se comover com a história, que é triste em um nível não visto em produções hollywoodianas. Trier é impiedoso com a personagem central, assim como a América é com os que se aventuram lá.
Uma história imperdível da realidade dura e cruel contrapondo-se à felicidade romântica das fantasias. Bonita obra, que há de ser apreciada pelos adoradores do bom cinema




(Dancer in the Dark, 2000)


» Direção: Lars von Trier


» Roteiro: Lars von Trier


» Gênero: Drama/Musical



Björk Selma Jezkova-

Catherine Deneuve Kathy -

Joel Grey Oldrich Novy -

Vladica Kostic Gene Jezkova -

Udo Kier Dr. Porkorny - Peter Stormare Jeff -
Cara Seymour Linda Houston -
Jean-Marc Barr Norman -
David Morse Bill Houston -


» Origem: Dinamarca/Estados Unidos/Inglaterra

» Duração: 140 minutos

» Tipo: Longa

» Trailer:

17.2.08

Ciclo # 5 Cinema Latino-Americano

Nesta semana 18 a 22/02 (segunda à sexta-feira)
No Sesc Cineclube Silenzio
ENTRADA GRÁTIS
18/02
Nove Rainhas

Título Original: Nueve Reinas
Gênero: Drama
Origem/Ano: ARG/2000
Duração: 115 min
Direção: Fabian Bielinsky
Elenco:
Ricardo Darín...
Gastón Pauls...
Leticia Brédice...
Ignasi Abadal...
Alejandro Awada...
Elsa Berenguer...
Leo Dyzen...
Ricardo D.Mourelle...
Carlos Falcone...
Tomás Fonzi...
Marcos Juan

Sinopse: A história de Nove Rainhas, passada na Buenos Aires dos dias atuais, começa numa madrugada e termina na manhã do dia seguinte. Nestas 24 horas ou pouco mais, Marcos (Ricardo Darín) y Juan (Gaston Pauls), seus protagonistas, passarão pela maior aventura de suas vidas, algo que Marcos insiste em chamar de "uma oportunidade em um milhão".Estes dois golpistas de segunda, que habitualmente "trabalhavam" por alguns poucos pesos, se conhecem por acaso numa certa madrugada e, de repente, tornam-se sócios numa negociação multimilionária envolvendo uma série falsificada de selos raríssimos, conhecidos como as "Nove Rainhas". O negócio deve ser realizado imediatamente, custe o que custar, uma vez que o milionário espanhol interessado nos selos deixará a cidade na manhã seguinte. Marcos conta com a ajuda de sua irmã, Valeria (Leticia Bredice), que trabalha no hotel onde o espanhol está hospedado, mas questões familiares pendentes azedam a relação dos irmãos.Enquanto o veterano Marcos vai ensinando ao jovem e inexperiente Juan os segredos do ofício, eles encontram a cada passo de sua jornada inusitada outros ladrões e farsantes, numa selva onde ninguém está livre de sua pequena ou grande parcela de corrupção. Cada revelação parece esconder uma mentira; cada promessa encobre outro golpe.

*************************************************************************************

19/02
Whisky

Título Original: Whisky
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 94 minutos
Ano de Lançamento (Uruguai): 2004
Estúdio: Control Z Films / Rizoma Films Distribuição: Global Film Initiative
Direção: Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Roteiro: Gonzalo Delgado, Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Produção: Fernando Epstein
Música: Pequena Orquestra Reincidentes
Fotografia: Bárbara Álvarez
Direção de Arte: Gonzalo Delgado
Edição: Fernando Epstein
Elenco: Jorge Bolani (Herman Koller)Mirella Pascual (Marta Acuña)Andrés Pazos (Jacobo Koller)Daniel HendlerAna Katz

Em Montevidéu vive Jacobo (Andres Pazos), um homem de 60 anos que vive sozinho desde a morte de sua mãe. Desde então sua única alegria na vida é a pequena fábrica de meias que possui. Marta (Mirella Pascual) é uma mulher de 48 anos que é o braço direito de Jacobo na fábrica, onde trabalha como supervisora. Marta e Jacobo possuem uma espécie de dependência mútua, apesar dos assuntos entre eles sempre ficarem em torno de trabalho. Até que um dia Herman (Jorge Bolani), o irmão de Jacobo, avisa que irá a Montevidéu para participar da matzeiva, uma celebração judaica para a colocação da pedra do túmulo em até um ano após a morte de uma pessoa. Herman não vai a Montevidéu há mais de 20 anos, tendo faltado até mesmo ao funeral de sua mãe, sendo que também tem uma pequena fábrica de meias, localizada no Brasil. A visita de Herman desperta em Jacobo a velha competição existente entre os irmãos, que faz com que ele faça a Marta uma proposta inusitada: que ela seja sua esposa durante a visita de Herman. Marta aceita a proposta. Ela passa então a morar no apartamento de Jacobo, onde ambos passam a se dedicar em enganar Herman durante sua estadia.

*************************************************************************************

20/02
Plata Quemada

Título Original: Plata Quemada
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 125 minutos
Ano de Lançamento (Argentina): 2000
Site Oficial: http://www.plataquemada.com/
Estúdio: Oscar Kramer S.A. / Cuatro Cabezas S.A. / Estudios Darwin / Romikin S.A. / Patricio Tobal / Editorial Capayán / Fundación Octubre / Ibermedia Program / Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales / Mandarin Films S.A. / Punto B.S.R.L. Planificatión y Medios / Taxi Films / Tornasol Films S.A. / Vía DigitalDistribuição: Gativideo / Filmes do Estação
Direção: Marcelo Piñeyro
Roteiro: Marcelo Figueiras e Marcelo Piñeyro, baseado em livro de Ricardo Piglia
Produção: Óscar Kramer
Música: Osvaldo Montes
Fotografia: Alfredo F. Mayo
Desenho de Produção: Belén Bernuy, Margarita Gómez e Noemí Nemirovsky
Edição: Juan Carlos Macías
Elenco: Eduardo Noriega (Angel)Leonardo Sbaraglia (Nene)Pablo Echarri (Cuervo)Leticia Brédice (Giselle)Ricardo Bartis (Fontana)Dolores Fonzi (Vivi)Carlos Roffé (Nando)Daniel Valenzuela (Tabare)Héctor Alterio (Losardo)Claudio Rissi (Realtor)Luis Ziembrowsky (Florian Reyes)Harry Havillo (Carlos Tulian)Roberto Vallejos (Parisi)Adriana Varela (Cantor do cabaret)

Angel (Eduardo Noriega) e Nene (Leonardo Sbaraglia) são dois matadores inseparáveis conhecidos no meio como "os gêmeos". Até que Fontana (Ricardo Bartis) lhes propõe um novo golpe: assaltar o caminhão que transporta os pagamentos da cidade de San Fernando, que transporta 7 milhões. Tanto Angel quanto Nene aceitam a proposta, para fugir do tédio e superar a crise que existe entre eles naquele momento. Porém, o que parecia ser um trabalho fácil acaba se tornando um verdadeiro massacre. Fontana, Angel e Nene decidem fugir para o Uruguai, para evitar que sejam mortos pelos policiais argentinos, que estão sedentos por vingança. Lá eles se escondem em um apartamento emprestado por Losardo (Héctor Alterio), um mafioso local, onde esperam a chegada de novos documentos fraudados que permitam que eles viajem para o Brasil. Mas quanto mais os documentos demoram a chegar mais a tensão entre os três cresce, chegando a níveis insuportáveis.

*************************************************************************************

21/02
Viridiana

Título Original: Viridiana
Direção: Luis Buñuel
Elenco: Silvia Pinal, Francisco Rabal e Fernando Rey.
Ano de Produção: 1961
Duração: 91 minutos
Cor: Preto e Branco
País de Produção: México

Palma de Ouro no Festival de Cannes, Viridiana é um dos filmes mais polêmicos dos anos 60, tendo sido proibido em diversos países. Às vésperas de ser ordenada freira, Viridiana passa uns dias na mansão do seu pervertido tio, que, obcecado com sua beleza, tenta seduzi-la de todas as maneiras. Com a morte repentina do tio, desiste da vida religiosa, indo morar no casarão do falecido. Movida pelo espírito de caridade cristã, ela abriga e alimenta todos os mendigos da região. Porém, os necessitados não se comportam do jeito que ela esperava... Uma das obras-primas do mestre Luis Buñuel (A Bela da Tarde), Viridiana traz uma das cenas mais famosas da história do cinema: a Santa Ceia dos mendigos, uma sátira genial à pintura de Leonardo Da Vinci.

*************************************************************************************

22/02
Como Água Para Chocolate

Título Original: Como Agua para Chocolate
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 105 minutos
Ano de Lançamento (México): 1992
Estúdio: Cinevista / Arau Films International / Fonatur / Instituto Mexicano de Cinematografia / Fondo de Fomento a la Calidad Cinematográfica / Aviacsa Distribuição: Miramax Films
Direção: Alfonso Arau
Roteiro: Laura Esquivel, baseado em livro de sua autoria
Produção: Alfonso Arau
Música: Leo Brouwer
Fotografia: Steven Bernstein e Emmanuel Lubezki
Desenho de Produção: Marco Antonio Arteaga, Emilio Mendoza e Denise Pizzini
Direção de Arte: Ricardo M. Kaplan
Figurino: Carlos Brown
Edição: Carlos Bolado e Francisco Chiu
Elenco: Marco Leonardi (Pedro Muzquiz)Lumi Cavazos (Tita)Regina Torné (Mãe Elena)Mario Iván Martínez (Dr. John Brown)Ada Carrasco (Nacha)Yareli Arizmendi (Rosaura)Claudette Maillé (Gertrudis)Pilar Aranda (Chencha)Farnesio de Bernal (Cura)Joaquín Garrido (Sargento Treviño)Rodolfo Arias (Juan Alejándrez)Margarita Isabel (Paquita Lobo)Brígida Alexander (Tia Mary) Sandra Arau (Esperanza Muzquiz)Andrés Garcia Jr. (Alex Brown)Rafael Garcia Zuazua Jr. (Alex Brown - garoto)

Tita (Lumi Cavazos) nasceu na cozinha do rancho de sua família, quando sua mãe (Regina Torné) estava cortando cebolas. Logo em seguida seu pai morre de um ataque cardíaco fulminante, por ter sua paternidade questionada. Com isso Tita é vítima de uma tradição local, que diz que a filha mais nova não pode se casar para que cuide da mãe até sua morte. Ao crescer Tita se apaixona por Pedro Muzquiz (Marco Leonardi), que deseja se casar com ela. Sua mãe veta o matrimônio, devido à tradição, e sugere que ele se case com Rosaura (Yareli Arizmendi), a irmã dois anos mais velha de Tita. Pedro aceita, pois apenas assim poderá estar perto de Tita.