17.6.09

20/06 - O Fascista (Luciano Salce)

Neste Sábado dia 20/06 às 19:30hr
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



O FASCISTA
(Il Federale)

Com:
Ugo Tognazzi .... Primo Arcovazzi
Georges Wilson .... Prof. Erminio Bonafé
Elsa Vazzoler .... Matilde Bardacci
Mireille Granelli .... Rita Bardacci
Stefania Sandrelli .... Lisa
Luciano Salce .... Oficial Alemão

Gênero: Comédia
Diretor: Luciano Salce
Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento: 1961
País de Origem: Itália

Em 1944, um fascista fanático que espera se tornar um Federale (posição de alta graduação no Partido fascista) deve levar do Abruzzo a Roma um opositor do regime. Ao longo do percurso (feito em moto com sidecar) os dois têm a oportunidade de se conhecerem melhor, tendo como cenário uma Itália fascista praticamente em ruínas. Apesar da clara evidência do colapso do regime, a fé do aspirante a Federale não é abalada, face a miragem da promoção. O primeiro filme de Luciano Salce como diretor na Itália - já havia dirigido Uma Pulga na Balança e Floradas na Serra pela Vera Cruz, em São Paulo - é uma divertidíssima comédia sobre até que ponto a fé e a ambição política (ou religiosa, dá no mesmo) pode levar os seres humanos a se tornarem completamente alienados e estúpidos. Nesse filme o diretor explora muito bem as contradições entre os sentimentos humanos - a nascente amizade entre o captor e o capturado, o oportunismo do poeta fascista - e atitudes fanáticas, que fazem com que uma pessoa tente atingir seus objetivos sob quaisquer circunstâncias. Após esse filme Salce teve uma carreira bastante apagada como diretor na Itália até 1975, quando filmou o primeiro dos Fantozzi, que se tornaram extremamente populares no país peninsular. Cabe assinalar também que esse é o primeiro filme cuja trilha sonora é do famosíssimo Ennio Morricone.


4.6.09

06/06 - Rushmore (Wes Anderson)

NESTE SÁBADO DIA 06 de Junho às 19:30hr
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA


Sinopse
Max Fischer (Jason Schwartzman), um rapaz de quinze anos, conseguiu uma bolsa de estudos em Rushmore, uma escola preparatória para jovens de famílias ricas. Apesar de se dedicar a várias atividades extra-curricualres, Max corre o risco de ser expulso, em virtude das suas notas serem baixas. Ele se torna amigo de Herman Blume (Bill Murray), um magnata que atravessa uma depressão. Max se apaixona por Rosemary Cross (Olivia Williams), uma professora que tinha ficado viúva um ano atrás, mas há dois problemas: Rosemary acha que Max é muito novo para ela e, além disto, Herman se apaixona por Rosemary e os dois se envolvem, criando entre Fischer e Blume uma certa rivalidade.

Três é Demais, de Wes Anderson Rushmore, EUA, 1999

Vamos começar desconsiderando o título brasileiro do filme de Anderson. Rushmore é o nome daquele que talvez seja o principal personagem do filme: a escola privada secundária onde estuda o protagonista e que ele tanto ama. Porque em última instância o filme é um exemplar do gênero do "cinema de escola". Mas isso é tudo de convencional ou qualificável que se pode encontrar no trabalho de Anderson. A partir da noção de um garoto de 15 anos vivendo intensamente seus anos de escola, o filme joga para o alto todas as convenções de gênero, e trabalha com uma mistura fundamental do que há de "realista" neste ambiente com o que ele projeta de imaginário e simbólico, pode-se dizer até mesmo que mítico, trabalhando na perspectiva da mitologia já criada pelo cinema americano como pela sociedade americana como um todo. Rushmore trabalha com esta "memória coletiva" com relação ao ambiente escolar, e constantemente a completa e subverte.

A começar pelo seu protagonista, Max Fischer. Ele é um garoto absolutamente incomum, mas ao mesmo tempo o mais comum deles. Não se pode encaixá-lo nas categorias que geralmente os filmes de escola criam, entre os nerds e os cool. Ele certamente nada tem de cool, mas ao mesmo tempo projeta uma profunda crença em tudo o que faz e acredita, disposto a abraçar o mundo com seu entusiasmo. É um garoto essencialmente bom, mas também capaz das maiores maldades quando contrariado. Ele mente, é péssimo aluno nas notas, mas ainda assim nunca tem nenhuma destas características colocadas em julgamento. Trata-se de fato de um personagem único, ou seja, ele dialoga com toda uma tradição de personagens, sem cair numa fórmula. Só Max Fischer pode ser Max Fischer.

Este é um dos mais essenciais pontos do cinema de Anderson que precisa ser entendido: todos os seus personagens dialogam com uma herança de tipos, mas nunca se encaixam em nenhum deles. O melhor amigo de Max é um garoto bem mais novo que ele, mas com a postura e os diálogos de um verdadeiro adulto, sempre em desacordo com sua imagem. Ao mesmo tempo, é capaz também de se voltar contra Max impiedosamente quando se sente traído. O objeto de desejo de Max também não é uma convencional colega a quem ele aspira, mas uma professora claramente fora do seu alcance, platônica, que só torna sua história mais terna e dura ao mesmo tempo.

Mas, talvez o principal personagem dentro desta perspectiva da estranheza ao estereótipo seja o magnata interpretado por Bill Murray, numa performance de impressionante contenção e sutileza. Trata-se de um milionário desencantado com a vida, e fascinado pela força vital de Max, que se torna um grande amigo dele. O que surpreende nesta relação entre um homem de mais de 50 anos e outro de 15 é que ela nunca de se dá na esperada condição de pai-filho. Pelo contrário, se há uma figura que surge como modelo entre os dois, é a de Max. A estranheza constante nesta relação se dá justamente pelo caráter verdadeiramente de iguais que se estabelece entre eles.

Porém não são só os personagens de Wes Anderson que trabalham nesta linha tênue entre o surreal e o realista. Todo o filme possui esta mesma sensação, com o trabalho cuidadoso e detalhista de direção de arte, figurinos, fotografia, e em especial a utilização da trilha sonora. Não se tem no filme a localização de um local ou uma data, porque é como se o diretor quisesse que nós víssemos uma essência atemporal do que seja ser adolescente, ter aspirações, ir à escola. O filme não é nunca anacrônico nem atual, mas transita constantemente entre os dois, com elementos quase sempre conflitantes e estranhamente funcionais.

O cinema de Anderson possui uma qualidade rara que é a capacidade de se mostrar extremamente cerebral no sentido da construção, onde se percebe com olhos atentos o cuidado com cada detalhe, que vai da movimentação de câmera ao mais sutil gesto dos atores, e os cuidados com o que se vê e ouve até mesmo no "background". Ao mesmo tempo, este detalhismo não se torna jamais frio, por causa do carinho e do arcabouço mítico com o qual o diretor trabalha, permitindo uma identificação constante do espectador com aquilo que assiste, por mais absurdo que possa parecer.

É como se os personagens trabalhassem fora da norma comum de comportamento social, mas aquilo que eles externam seja compreendido perfeitamente por se relacionar com o que todos sentimos. Rushmore é filmado como se visse o interior das pessoas, ultrapassando o limite do "real". Por isso consegue ser tão emocionante ao mesmo tempo em que é calculado e estranho. Trata-se de uma característica que assemelha em muitos pontos o trabalho do diretor com o dos irmãos Coen, que sempre trabalham com o conceito da "Americana" (a mitologia formadora de um imaginário comum de ícones norte-americanos) guiando seus filmes, que patinam no limite do mágico e do real, dos Estados Unidos entendidos em si mesmos como metáfora constante e um país que possui um tal arsenal imagético sobre si próprio que suas significações são necessariamente baseadas nele.

A sensação constante em Rushmore é que cada palavra e cada gesto dos personagens possui uma importância capital em suas vidas. E isso é especialmente adequado uma vez que o filme seja praticamente feio dentro da visão de seu protagonista, e aos 15 anos todos os atos e gestos têm esta força, tudo parece que vai durar para sempre e cada palavra de carinho ou rejeição possui proporções descomunais. Num momento o personagem de Bill Murray fala para Max: "Eu gastei 8 milhões de dólares para chamar a atenção dela!", ao que ele responde: "E isso é tudo que você está disposto a gastar?" Por conseguir capturar esta atmosfera onde amor, amizade, lealdade e rejeição são muito maiores e mais vitais do que em qualquer outro momento na vida, Rushmore é um dos maiores filmes americanos sobre esta idade, sobre esta condição chamada adolescência.

19.5.09

23/05 - A Dança dos Vampiros (Roman Polanski)

NESTE Sábado dia 23 de Maio às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

A DANÇA DOS VAMPIROS (1967)

The fearless vampire killers


Direção: Roman Polanski

Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach

Produção: Gene Gutowski

Música Original: Christopher Komeda

Fotografia: Douglas Slocombe

Edição: Alastair McIntyre

Design de Produção: Wilfred Shingleton

Direção de Arte: Fred Carter

Figurino: Sophie Devine

País: USA/ING

Gênero: Comédia

Elenco

Ator / Atriz Personagem
Jack MacGowran Prof. Abronsius
Roman Polanski Alfred, assistente do Prof. Abronsius
Alfie Bass Shagal
Jessie Robins Rebecca Shagal
Sharon Tate Sarah Shagal
Ferdy Mayne Conde Von Krolock
Iain Quarrier Herbert Von Krolock
Terry Downes Koukol
Fiona Lewis Magda, a empregada
Ronald Lacey Idiota
Sydney Bromley Motorista
Andreas Malandrinos Cortador de árvores
Otto Diamant Cortador de árvores
Matthew Walters Cortador de árvores

Sinopse

O professor universitário Abronsius, especialista em vampiros, e seu ajudante atrapalhado Alfred, partem para a Transilvânia, no coração da Europa Central, em busca de vampiros.

No albergue em que eles ficam hospedados, por superstição, não se fala em vampiros. O dono da hospedaria está preocupado em correr atrás da empregada e cuidar de sua filha Sarah, que tem um hábito obsessivo por banho. Logo no primeiro instante, Alfred apaixona-se por Sarah.

A moça é levada pelo conde Von Krolock, um temível e poderoso vampiro, até o seu sinistro castelo localizado nas montanhas de neve. O professor e seu assistente seguem em busca do tal castelo onde, além de Von Krolock, moram seu filho e um fiel e bizarro corcunda.

Ao chegarem lá, são muito bem recebidos pelo Conde que, entretanto, aguarda apenas o momento certo para atacá-los. Começa, então, a luta de Abronsius e de seu assistente para tentar escapar do castelo levando com eles a bela Sarah, agora uma nova vampira.

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Críticas

"A Dança dos Vampiros" é, antes de tudo, uma paródia dos filmes sobre vampiros produzidos pela Hammer Film Production Ltd., tais como, "The brides of Dracula" de 1960 e "Dracula: Prince of Darkness" de 1966. Assim, o filme apresenta uma mistura bem dosada de comédia com trama policial.

Polanski sabe habilmente utilisar certos pontos fortes dos filmes da Hammer para os transcender. Os cenários realizados por Wilfred Shingleton são simplesmente magníficos. A fotografia de Douglas Slocombe, a estrutura da narrativa, a excelente música de Christopher Komeda que se encaixa perfeitamente no clima do filme e os primorosos figurinos de Sophie Devine fazem de "A Dança dos Vampiros" um clássico. O elenco é também um ponto forte, com destaque para Jack MacGowran.

O filme foi rodado entre Londres e a Itália. Embora se trate de uma comédia, Polanski consegue magistralmente inserir alguns momentos de requintado suspense.

Mistura elegante de comédia de humor negro e terror escrachado, filme é uma delícia e tem visual fantástico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma temporada de férias de um cineasta que se preparava para vôos mais altos, em plena neve dos Alpes. Foi dessa maneira que o espectador europeu assistiu ao excêntrico e belíssimo “A Dança dos Vampiros” (The Fearless Vampire Killer, Inglaterra, 1967), um filme que parecia surgir na filmografia do cineasta polonês Roman Polanski como uma mancha – de sangue! – em uma carreira imaculada e brilhante. O tempo faria justiça, contudo, à desconfiança com que a platéia mais cerebral recebeu a divertida viagem de Polanski ao mundo imaginário dos vampiros.

Para começar, não havia nada de férias no projeto para Polanski. Muito pelo contrário. Depois de realizar o independente “Repulsa ao Sexo” e virar um nome respeitado no cenário internacional, o cineasta conseguiu financiamento norte-americano para o novo longa e viu, nele, a chance de firmar de vez seu nome no cinema internacional. Por isso, cercou-se de grandes nomes, como o renomado fotógrafo Douglas Slocombe, para realizar um estranho coquetel de horror, comédia e aventura nonsense.

“A Dança dos Vampiros” é um grande filme, um longa-metragem tipicamente europeu, que busca distância dos rótulos fáceis e situa-se numa fronteira de gêneros muito difícil de ser trabalhada com naturalidade. A trama mostra um velho estudioso de ocultismo, o professor Abronsius (Jack McGowan, em interpretação hilariante), viajando até a Transilvânia para tentar comprovar a teoria de que os vampiros existem. Não há referências a Drácula, mas nem precisava.

Quando Abronsius, acompanhado do atrapalhado ajudante Alfred (Polanski, mostrando que também é um ótimo ator, com timing perfeito para a comédia), chegam ao destino, encontram duas coisas: uma estalagem onde vive a belíssima jovem Sarah Chagall (Sharon Tate, deslumbrante antes de casar com o diretor) e um castelo habitado por uma excêntrica família de vampiros, que inclui inclusive um jovem e louro chupa-sangue afeminado.

O filme equilibra com maestria os momentos de horror e comédia, amparado por uma fotografia espetacular, que valoriza em detalhes as lindas paisagens geladas dos Alpes, o rosto angelical de Sharon Tate e a bela arquitetura secular da região. O baile dos vampiros que responde pelo clímax do filme, particularmente, é uma seqüência capaz de provocar sorrisos no amante do cinema de humor negro, pela beleza e elegância com que foi realizado. Para quem tem dúvida de que Polanski é gênio, “A Dança dos Vampiros” é um ótimo antídoto.

8.5.09

09/05 - As Duas Vidas de Audrey Rose (Robert Wise)

Neste Sábado dia 09 de Maio às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



Janice (Marsha Mason) e Bill Templeton (John Beck) são um casal que vive feliz com sua filha única, a bem-comportada pré-adolescente Ivy (Susan Swift). Essa imagem de família feliz começa a ser decomposta com a chegada do estranho Elliott Hoover (Anthony Hopkins). Depois de suspeitas de que ele pretende molestar sexualmente Ivy, Hoover tenta convencer aos pais que seu interesse (quase uma obsessão) pela garota é apenas paternal. Para ele, a menina é a reencarnação de sua filha, morta em um terrível acidente. Coisas estranhas começam a acontecer a partir desse momento.

Anthony Hopkins faz um sujeito rico e estudado que tenta convencer um casal (Marsha Mason e John Beck), em plena Nova York, capital do mundo, de que a filha deles é a reencarnação da sua própria filha, Audrey Rose, que morreu queimada em um acidente de carro.

Aparentemente, pouca gente levou o filme a sério, apesar do peso do nome de Wise, vencedor de quatro Oscars, diretor de A Noviça Rebelde/The Sound of Music, um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos, e do extraordinário Amor, Sublime Amor/West Side Story, para citar apenas duas obras de sua vasta filmografia - que inclui o trabalho de montagem de Cidadão Kane/Citizen Kane.

Já o AllMovie, numa crítica assinada por Craig Butler, dá importância ao filme. “Audrey Rose, parte do ciclo de filmes de terror dos anos 1970 causado pelo enorme sucesso de O Exorcista, é um exemplo mais inteligente, cheio de nuances, do gênero - o que é ao mesmo tempo sua bênção e sua maldição. Robert Wise o dirigiu numa maneira relativamente suavizada, mas ainda assim tem diversos momentos apavorantes. Trabalhando sobre um roteiro muito palavroso - e que tenta discutir racionalmente o conceito de reencarnação ao mesmo tempo em que mantém uma atmosfera de horror -, Wise inteligentemente faz das palavras uma vantagem. Mantém o foco no diálogo - ou, muitas vezes, monólogo -, enquanto sutilmente dá grande ênfase aos movimentos para criar tensão ou suspense. Wise também dá ao filme um estilo visual, e a cena do homem de neve na escola é particularmente bem feita. Ele é ajudado pela atuação intensa, cheia de dor, de Anthony Hopkins, e pela mudança impressionante por que passa Susan Swift no papel título.”



Título no Brasil: As Duas Vidas de Audrey Rose
Título Original: Audrey Rose
País de Origem: EUA
Gênero: Terror
Tempo de Duração: 113 minutos
Ano de Lançamento: 1977
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.:
Direção: Robert Wise


22.4.09

25/04 - Faces (John Cassavetes)

Neste Sábado dia 25/04 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

Cinema do corpo, espelho da alma

A entrada em Faces é uma experiência abismal: depois de uma seqüência inicial um tanto metalingüística e quase deslocada (mas nem tanto) da narrativa subseqüente, somos jogados no meio de uma seqüência noturna em que dois homens e uma mulher saem do “The Loser’s Club” (que nome, que nome!!...), e vão para a casa dela. Lá, embriagados, se envolvem numa longuíssima seqüência de sedução e repulsa, onde muito aos poucos vamos entendendo os laços que unem (ou não) cada um deles. A seqüência é longa, mas os planos são curtíssimos, instáveis ao extremo: cortes rápidos, quebras constantes (e propositais) de eixo, aproximações extremas nos rostos misturadas com planos abertos, pequenas elipses. Uma leitura apressada falaria de uma “câmera bêbada” como os personagens, mas muito mais do que uma questão de embriaguez, a inquietude da câmera de Cassavetes é reflexo do desconforto dos personagens (a princípio um desconforto lido pela situação em si, mas que, ao longo do filme, veremos se tratar de um desconforto muito mais profundo, existencial mesmo).

Esta primeira seqüência, agressiva e confusa (ambos efeitos absolutamente propositais), estabelece um desafio ao espectador: “ame-me ou deixe-me”. O filme ali deixa claro para o espectador que não pretende facilitar sua fruição, nem no que tange a linguagem, nem especialmente no que tange o retrato das relações humanas. Trata-se, neste sentido, de ato até generoso: Cassavetes estabelece bem cedo suas regras, e permite ao espectador que tome por si a decisão de comprá-lo ou não. Aos que optarem por comprar, Faces oferece uma viagem às profundezas do ser humano, principalmente a partir das relações de gênero, amorosas e sexuais – e neste sentido o filme não poderia ser mais representativo do seu ano de produção (1968), antecipando muito do debate sobre os papéis da mulher que dominaria os EUA na década seguinte.

Nesta viagem, Cassavetes demonstra uma disposição cada vez mais rara no cinema que o sucedeu (em especial, o dito cinema independente americano, do qual foi eleito postumamente como o “papa e fundador”, mas que tão pouco deve a ele no geral): tornar ternura e agressividade, fragilidade e poder, desesperança e transcendência pólos não apenas próximos, como convivendo sempre nos mesmos corpos. Corpos, sim: porque embora o filme se chame Faces e realmente tenha alguns dos mais marcantes closes em rostos humanos vistos no cinema (especialmente os de Richard Morley e Lynn Carlin – estupendos – mas no de todos os atores), todo o jogo do filme é uma questão de corpos em movimento. Talvez fosse mais adequado falarmos mesmo corpos (nada celestes) em órbita, porque cada um deles parece gerar um campo gravitacional em torno de si, constantemente atraindo e repelindo os outros. Não por acaso os primeiros beijos entre Morley e Gena Rowlands mais parecem uma colisão entre dois objetos animados do que exatamente um encontro “amoroso” entre dois seres humanos. Trata-se menos da expressão de um desejo do que a simples concretização de uma força maior que ambos, que os empurra em direção ao outro. O mesmo acontecerá mais adiante nas cenas entre Seymour Cassell e Carlin, no apartamento desta – tanto na sedução como na impressionante seqüência da reanimação dela, em que poucas vezes vimos o peso de um corpo filmado com tanta força.

Tudo isso vai culminar na seqüência, e especialmente no plano final, em que os corpos de Morley e Carlin parecem mesmo atrair e repelir um ao outro seguidamente, como se eles mesmos não dominassem mais seus atos, seus impulsos, seu desejo do carinho, do entendimento, mas também da fuga, da liberdade, da recusa. Este plano final, inclusive, serve como antítese a todas as idéias mais simplórias do cinema de Cassavetes como um do domínio do improviso: um plano longo, de enquadramento fixo e estudadíssimo para atingir o máximo efeito das entradas e saídas de quadro, da relação de profundidade e mudança de altura através da escada. Plano para o qual todo o filme converge, mostrando que o cinema de Cassavetes é um do planejamento, ainda que um planejamento que incorpora a matéria-viva do cinema (ou seja, os atores – mas também a câmera) como partes criadoras de um sentido já muito pensado.

É aí que o cinema de Cassavetes se aproxima do de um Rohmer, que assim como ele (embora em registro visual e dramático absolutamente distinto, pelo menos após O Signo do Leão) se aproveitava de um determinado “efeito de real”, só que atingido a duras penas (através de uma exploração altamente estudada de progressão dramática e linguagem muitas vezes teatral – este último aspecto muito mais em Cassavetes, é verdade, especialmente notável, não só pelo tema, em Noite de Estréia). Só que este efeito de real, muito mais do que “fotocopiar” a vida, busca transcendê-la pela sua hiper-utilização, pela sua exacerbação, nos permitindo o sentimento essencialmente artístico do êxtase da percepção. Ou seja: tudo aquilo que um determinado cinema “sanguessuga do mundo real” (pensamos hoje especialmente em Na Cama, cuja trama inclusive possui paralelos com a de Faces) não consegue sequer compreender, que dirá solucionar cinematograficamente. Em Faces, muito mais do que apenas (apenas?) uma compreensão profunda dos dilemas humanos frente a incompletude e beleza inerentes aos encontros e relações amorosas, temos ao trabalho um mestre da arte cinematográfica no ápice do seu domínio da linguagem que resolveu explorar. Não é pouca coisa.

por Eduardo Valente.

Direção:

John Cassavetes

Ano:

1968

País:

Estados Unidos

Gênero:

Drama

Duração:

130 min. / p&b

Título Original:

Faces

Elenco:

John Marley, Gena Rowlands, Lynn Carlin, Seymour Cassel, Fred Draper, Dorothy Gulliver, Jerry Howard, Carolyn Fleming, Don Kraatz, Val Avery

Sinopse:

O enredo do filme reflete as insatisfações da classe média americana e a falência da instituição familiar a partir de uma trama de troca de casais.

26.3.09

28/03 e 04/04 - Smoking/No Smoking (Alain Resnais)

Nos dias 28/03 e 04/04 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA





As consequências de uma dona de casa fumar ou não um cigarro ramificam-se numa dúzia de destinos separados e universos paralelos, cada um com sua própria conclusão, nesses dois longas franceses de Alain Resnais. Adaptado e traduzido de seis das oito peças cômicas que compreendem o ciclo Intimate Exchanges do autor inglês Alan Ayckbourn, eles podem ser assistidos juntos ou sozinhos, e em qualquer ordem. O projeto, um tour de force para dois atores, interpretando múltiplos papéis (Pierre Arditi e Sabine Azema), foi um sucesso de bilheteria quando lançado na França em 1993, e como uma unidade os dois filmes varreram os Cesars (o Oscar francês) de melhor filme, diretor, ator, e cenografia.



Título original: Smoking/No Smoking
Realização:
Alain Resnais
Intérpretes:
Sabine Azéma, Pierre Arditi França, 1993

13.3.09

14-03 - Bande à Part (Jean-Luc Godard)

Neste Sábado dia 14-03-2009 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

"Bande à Part" (1964 - 92m)

SINOPSE
"As personagens de Godard vivem como se estivessem (ou talvez como se vivessem) num filme: Cantam e dançam como se vivessem num musical, percorrem Paris como se estivessem num filme noir, disparam como se estivessem num western." -Luis Miguel Oliveira, Cinemateca Portuguesa

Pondo alegremente em prática a máxima de D. W. Griffith - "para fazer um filme basta uma garota e uma arma" - BANDE À PART é a homenagem de Godard aos filmes policiais da Hollywood dos anos 40. Frantz e Arthur, dois amigos porras loucas habituados a meter-se em embrulhadas, conhecem a tímida Odile (interpretação extraordinária de Anna Karina, à época mulher e musa de Godard), que lhes conta que a sua tia Victoria e um amigo, o sr. Stolz, escondem em casa uma avultada soma de dinheiro. Frantz e Arthur começam imediatamente a planejar um roubo. Enquanto acompanhamos as deambulações deste trio improvável pelos cafés e ruas de Paris, cresce a suspeita de que o golpe que preparam não vai correr de acordo com o plano. Com fotografia de Raoul Coutard e música de Michel Legrand, BANDE À PART, é um dos mais famosos filmes do cineasta franco-suíço, tem algumas das mais antológicas cenas da história do cinema, nomeadamente a sequência da dança no café que inspirou Quentin Tarantino em "Pulp Fiction" e Hal Hartley em "Simple Men", além da corrida pelo Louvre homenageada por Bertolucci em "Os Sonhadores"

DIRETOR
Jean-Luc Godard

INTÉRPRETES
Anna Karina, Danièle Girard, Louisa Colpeyn, Chantal Darget, Sami Frey, Claude Brasseur, Georges Staquet, Ernest Menzer, Jean-Claude Rémoleux.

13.1.09

CICLO DE FÉRIAS - FAÇA CHUVA OU FAÇA LUA - 19 a 23/01

CICLO DE FÉRIAS
Faça Chuva ou Faça Lua
De 19 a 23/01 às 20:30hrs no SESC Cascavel


19/01


20/01


21/01


22/01


23/01


PARA RECEBER AS SINOPSES MANDE UM EMAIL PARA
cineclubesilenzio@gmail.com

15.12.08

CICLO AO LUAR (Desta vez vai)

DE 15 a 19 de Dezembro às 20:30hrs

COMEÇA HOJE (15/12) O CICLO AO LUAR COM O FILME CANTANDO NA CHUVA ÀS 20:30HR no SESC

A SEMANA SEGUE COM OS FILMES:

O PICOLINO
O MÁGICO DE OZ
NÚPCIAS REAIS

E UM FILME SURPRESA NA SEXTA-FEIRA

VENHAM TODOS CURTIR UM "PRÉ-NATAL" COM UM CLÁSSICO À LUZ DO LUAR.

ABRAÇOS

5.12.08

CICLO AO LUAR - DE 08 a 12 de Dezembro

DE 08 a 12 de DEZEMBRO (segunda a sexta) às 20:30h no SESC



1- CASABLANCA
(Casablanca, 1942)

Rick é dono de um famoso bar localizado em Casablanca, no Marrocos Francês, durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade é rota de fuga para quem deseja evitar os nazistas, onde passes livres são vendidos por um salgado preço no mercado negro. Neste caótico ambiente, Rick encontra Ilsa, com quem tivera um amor interrompido inesperadamente há algum tempo, em Paris. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor e Roteiro, possui ainda uma das mais belas canções já compostas para um filme, "As Time Goes By".



2 - O PICOLINO
(Top Hat, 1935)

Um bailarino é contratado para estrelar um musical. Em meio aos ensaios, ele conhece e se apaixona por uma bela mulher. Porém, o romance entre os dois é interrompido porque ela pensa que o bailarino é noivo de sua amiga. Com Fred Astaire e Ginger Rogers. Recebeu 4 indicações ao Oscar



3- CANTANDO NA CHUVA
(Singin' the Rain, 1952)

Em 1927, Hollywood está um verdadeiro rebuliço, com a transição do cinema mudo para o falado. Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hage), o casal mais querido do cinema mudo, prepara-se para rodar um musical. Mas infelizmente Lina não só não sabe cantar, como tem uma voz horrível. A estreante Kathy Selden (Debbie Reynolds) é chamada a emprestar sua voz à estrela. As gravações são uma confusão, mas tudo piora quando Don se apaixona pela doce Kathy. Ao lado de seu inseparável amigo, o compositor Cosmo Brown (Donald O' Connor), ele tenta mostrar ao mundo o talento de Kathy



4- O MÁGICO DE OZ
(The Wizard Of Oz, 1939)

(The Wizard Of Oz, 1939) Nós batemos nossos saltos na expectativa. Não há lugar como o lar e nenhum filme como este. De geração para geração, O Mágico de Oz nos mantém unidos - crianças, adultos, famílias, amigos. A impressionante terra de Oz, um mundo de sonhos que viram realidade, de florestas encantadas, espantalhos dançantes e leões cantates, uma mágica aventura recheada de maravilhosas canções. Baseado na preciosa série de livros de L. Frank Baum, O Mágico de Oz foi julgado o melhor filme familiar de todos os tempos pelo American Film Institute. E essa restauração nunca vista antes parece e soa melhor do que antes. Nós convidamos você para embarcar rumo a Cidade Esmeralda na mais famosa estrada da história do cinema. Dorothy (Judy Galard), Espantalho (Ray Bolger), Homem-de-Lata (Jack Haley) e Leão Covarde (Bert Lahr) esperam por você na Estrada dos Tijolos Amarelos e Over The Rainbow.



5- NÚPCIAS REAIS
(Royal Wedding, 1951)

Dois irmãos bem distintos, ele sério e ela baladeira, embarcam para Londres para um importante show. As diversões da irmã colocam em perigo o sucesso da dupla.

3.11.08

08/11 - Bem-vindo a Casa de Bonecas (Todd Solondz)

Neste Sábado dia 08/11 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

Título Original: Welcome to the Dollhouse
Gênero: Comédia Dramática
Tempo de Duração: 89 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1995
Site Oficial: www.spe.sony.com/classics/welcome/index.html
Estúdio: Suburban Pictures
Distribuição: Sony Pictures Classics
Direção: Todd Solondz
Roteiro: Todd Solondz
Produção: Todd Solondz
Música: Jill Wisoff
Fotografia: Randy Drummond
Desenho de Produção: Susan Block
Direção de Arte: Lori Solondz
Figurino: Melissa Toth
Edição: Alan Oxman




seta3.gif (99 bytes) Elenco
Heather Matarazzo (Dawn Wiener)
Matthew Faber (Mark Wiener)
Daria Kalinina (Missy Wiener)
Brendan Sexton III (Brandon McCarthy)
Eric Mabius (Steve Rodgers)
Will Lyman (Sr. Edwards)
Rica Martens (Sra. Grissom)
Dimitri DeFresco (Ralphy)
Stacey Moseley (Mary Ellen Moriarthy)
Herbie Duarte (Lance)
Telly Pontidis (Jed)
Christina Brucato (Cookie)
Victoria Davis (Lolita)



seta3.gif (99 bytes) Sinopse Dawn Weiner (Heather Matarazzo) não tem motivos para gostar da escola, na qual estuda na sétima série. Ela é uma adolescente complexada e há motivos para isto. No seu colégio é ridicularizada pelos colegas, que a chamam de "Salsicha", e seu relacionamento com sua família não é dos melhores. Ela deseja ser aceita de qualquer jeito e para isto planeja namorar um rapaz mais velho, que é muito popular, apesar disto ser totalmente improvável.

Depois de assistir a “Bem-vindo à Casa de Bonecas” (Welcome to the Dollhouse, EUA, 1995) e dar uma boa olhada numa foto do seu diretor, Todd Solondz, é inevitável pensar no quanto o filme contém de autobiográfico. Trata-se, afinal, de um retrato demolidor da família típica norte-americana, centrada no figura de uma pré-adolescente estilo “patinho feio”, que é uma descrição muito apropriada para a figura mirrada de óculos fundo-de-garrafa que é o diretor. Impressiona, sobretudo, a enorme crueldade com que Solondz trata sua personagem principal, expondo sem piedade sua agonia desesperada para ser ouvida por alguém, qualquer pessoa, ainda que para isso precise passar por situações constrangedoras e/ou humilhantes.

Nesse sentido, o relacionamento mais esclarecedor do filme é aquele que une a protagonista Dawn (Heather Matarazzo) e o colega de classe Brandon (Brendan Sexton III). Ambos têm na faixa dos 13 anos e são solenemente desprezados pelos amigos. Brandon, menino cheio de hormônios, decide que a melhor maneira de romper a casca que o separa do resto do mundo é humilhando com violência a única pessoa que conhece a estar situada abaixo dele na escala de desprezo do colégio – e esta pessoa é Dawn. Então, como se despreza alguém aos 13 anos? Com ameaças de surras e estupros.

Ocorre que Dawn, agônica e irascível, está a aponto de explodir de tanta frustração solitária. Ninguém lhe entende, ninguém lhe dá atenção. Dentro da própria família, ela é um zero à esquerda. A irmã mais nova (Daria Kalinina) é a bonita e o irmão mais velho (Matthew Faber), o inteligente; o que lhe resta é o rótulo invisível de “burra e feia”. Os pais lhe ignoram. Ela é uma das piores alunas da turma, se veste mal, tem o rosto cheio de espinhas e está acima do peso, o que significa virar alvo de chacota e piadas constantes dos colegas de colégio e até dos familiares. Dawn está disposta a tudo para arrumar companhia. Talvez até mesmo se deixar ser estuprada. A amizade que surge entre ela e Brandon é tortuosa, mas sincera. É a amizade de duas almas incompreendidas.

“Bem-vindo à Casa de Bonecas” é um retrato cáustico e cruel do isolamento social a que os indivíduos que não se encaixam nos padrões ditos “normais” são submetidos. A partir da virada entre os anos 1980 e 1990, talvez a partir da pequena pérola “Sexo, Mentiras e Videotape” (1998, de Steven Soderbergh), o cinema independente produzido nos EUA revelou uma série de bons cineastas dedicas a desmontar a hipocrisia da família norte-americana, como uma criança faria com um Lego. Terry Zwigoff (“Ghost World”) e Paul Thomas Anderson (“Magnólia”) são alguns desses nomes que filmam o que há por trás da aparência de normalidade das casa de subúrbio em que vivem os perseguidores do “sonho americano”. Solondz é o mais radical deles.

A habilidade deste diretor nascido e criado em Nova Jersey, nos arredores de Nova York, é inquestionável. A narrativa de “Bem-vindo à Casa de Bonecas” é limpa e sem gorduras, o texto é cru e ácido, os diálogos são inteligentes. Filmado em locações reais e com um orçamento menor do que US$ 1 milhão, o segundo longa-metragem do cineasta exala espontaneidade e crueza, transitando numa terra de ninguém entre o cômico e o trágico, de forma que o filme em geral soa melancólico e amargo, mas com um forte cheiro de comédia.

Solondz tem sido muitas vezes questionado e criticado por submeter seus personagens a situações de grande crueldade, sem deixar transparecer, como outros cineastas, nenhum afeto por eles. Gostar ou não desse tipo de abordagem é algo pessoal, mas não há como negar que a voz de Todd Solondz é uma das mais altas a gritar contra a alienação social nos EUA, o que o transforma inevitavelmente em porta-voz dos socialmente isolados. Vindo de um sujeito magrelo e feioso, não é muito difícil imaginar que o filme contém muito da experiência pessoal de Solondz, curiosamente um cineasta que não circula em Hollywood e permanece bastante isolado dos seus pares, como um Dawn do sexo masculino e na idade adulta. Isso é curioso, e certamente põe o diretor numa posição peculiar e interessante. Quem gosta de cinema transgressor deveria dar uma espiada atenta nos filmes dele.

“Bem-vindo à Casa de Bonecas” foi lançado no Brasil nos cinemas, em 1996, e exibido em circuito restrito às salas de arte. Jamais saiu em DVD. Nos EUA, a edição existente é da Columbia, e contém apenas o filme (imagem em formato wide anamórfico 16:9 e som em Dolby Digital 2.0) com um trailer como único extra.

- Bem-vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse, EUA, 1995) Direção: Todd Solondz Elenco: Heather Matarazzo, Matthew Faber, Daria Kalinina, Brendan Sexton III Duração: 89 minutos

27.10.08

01/11 - A Troca (Peter Medak)

Neste Sábado dia 01/11 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



Desde a trágica morte de sua família, o compositor John Russell (George C. Scott), abandonou Nova Iorque e agora vive numa casa solitária na esperança de continuar compondo e encontrar a paz. Enquanto ele aprecia o silêncio e solidão de sua nova residência, ele começa a ver constantemente o corpo de um jovem rapaz. Nas suas pesquisas pela casa, ele descobre uma entrada secreta para um antigo quarto de criança, que permaneceu esquecido durante muito tempo. Nele, John encontra uma cadeira de rodas e uma caixinha de música e sente que alguma coisa terrível deve ter acontecido neste quarto. Possivelmente, devido ao seu trauma, ele está aberto a se comunicar com os espíritos ocupantes da casa e tenta fazer contato através de um médium. A sinistra sessão espírita revela um acontecimento que permaneceu, até então, em segredo...
Gênero Suspense/ Terror
Atores George C. Scott, Trish VanDevere, Melvyn Douglas, John Colicos, Jean Marsh, Barry Morse, James Douglas, Madeleine Thornton-Sherwood, Roberta Maxwell, Bernard Behrens,
Direção Peter Medak,
Idioma Inglês,
Legendas Português
Ano de produção 1979
País de produção Estados Unidos,
Duração 115 min.

Sem Sangue, sem CGI

Vander Colombo

Desta vez devo-lhe fazer uma confissão: Não, o diretor do filme desta semana não é um grande diretor. Na verdade, Peter Medak até fez algumas coisas capazes de envergonhar o dúbio título dos convocados ao “Masters of Horror” da Multishow.

Aí chega a hora de você se perguntar: “Ta, e por que diabos escalou um filme do cara pra essa semana?” E lhe respondo, porque A Troca, é um filme ímpar na estante dos filmes de terror em língua inglesa. Primeiro, porque o filme não tem uma única gota de sangue e um único efeito especial “off camera” ou seja, não há um único efeito que foi realizado em cima da imagem posteriormente, todos eles foram habilmente feitos apenas com trucagens de câmera.

“Ok, Vander, Drácula e Frankenstein de 1931, Nosferatu e muitos outros filmes também foram feitos assim” Sim, lógico que por necessidade, mas é verdade, porém a Troca não é um filme de monstro, mas um filme de fantasmas feito em 1979, isso é, depois de Tubarão e Guerra nas Estrelas, sendo que depois desses filmes o “ó do borogodó” era encher o filme de efeitos especiais até o talo (lembra de Poltergeist?) aliás, “era” é bondade minha, ainda o é (lembra de qualquer um dos últimos filmes que assistiu no shopping?).

Em A Troca, George C. Scott é um compositor que após a morte da família muda-se para um grande casa, onde pouco a pouco começa a perceber estranhezas. O compositor aos poucos vai tentando decifrar o que ele mais tarde acredita ser uma mensagem. E é justamente aí que o filme torna-se mais interessante que pencas de outro do gênero, pois ao invés de segurar a platéia com banhos de sangue, ele a faz participar da investigação com todo o interesse possível, e convenhamos isso não é das coisas mais fáceis em filmes do estilo, até porque a “entidade” não é um professor de literatura antiga evocando clássicos como A Divina Comédia ou fazendo enigmas à luz de Aristóteles, mas simplesmente um interlocutor com segredos inquietantes.

E afinal será Halloween, um feriado que não comemoramos e nem fazemos feriado, mas graças aos enlatados dominamos. E Halloween é sinônimo de serial killer, que aliás também não temos por aqui, fantasmas dizem que tem em todo lugar e parece que não foram patenteados, o que nos dá uma sensação maior de participação na trama (A que ponto chegamos quando para nós o sobrenatural é o mais próximo possível do verossímil?).

A Troca se não for um filme que estimule a inteligência é no mínimo um estímulo à sua criatividade dedutiva. Vez ou outra é interessante não somente “assistir” um filme, mas “observa-lo” no sentido ativo do verbo. Digamos que na categoria de filmes de gênero isso tem sido de uma raridade similar a conseguir conversar com um fantasma.

O filme “A Troca” será exibido neste sábado dia 01/11 às 19:30h

No SESC Cineclube Silenzio.

A entrada é gratuita

24.10.08

25/10 - Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman)

Neste Sábado dia 25/10 às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



Um dos filmes mais perturbadores do mestre Ingmar Bergman, Gritos & Sussurros é apresentado, pela primeira vez no Brasil, em versão restaurada e remasterizada no formato widescreen, que resgata em todo seu esplendor a belíssima fotografia do genial Sven Nykvist, premiada com o Oscar da categoria. Numa casa de campo, Agnes recebe, à beira da morte, os cuidados de suas duas irmãs e de uma dedicada empregada da família. Neste ambiente claustrofóbico, acompanhamos as imaginações, lembranças e frustrações destas quatro mulheres. Indicado a 5 Oscar, incluindo Melhor Filme e Direção, Gritos & Sussurros é obra-prima de uma riqueza infinita, obrigatória na coleção de todo cinéfilo.
Gênero Arte
Atores Liv Ullman, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Kari Sylwan, Erland Josephson,
Direção Ingmar Bergman,
Idioma Sueco,
Legendas Português,
Ano de produção 1972
País de produção Suécia,
Duração 106 min.

Estou morta, mas não consigo dormir.

Vander Colombo.

Dizer que o texto vai de encontro a Ibsen ou mesmo Tchecov, seria minimizá-lo. Não fosse o fato da humanidade não imortalizar seus contemporâneos, Ingmar Bergman estaria no mesmo patamar de seus dois antecessores, sem tirar ou pôr.

Na época que começava a produção de Gritos e Sussurros, Bergman dava instruções aos seus companheiros de set, de que aquilo não era uma história, era um sentimento, aquilo não era uma casa, mas o interior de uma alma fragilizada. Por conta disso o vermelho que iria dominar o filme junto ao branco e negro, era tão somente como a membrana úmida que segundo Bergman cobria esta mesma alma.

O universo é feminino, suas atrizes já declaravam que Bergman talvez entendesse melhor este universo que as próprias mulheres. E o sentimento, bom, primeiramente como poderia eu traçar a sinopse de um sentimento..., porém, comum à obra bergmaniana, o sentimento é resultante da fé versus o vazio divino. Desumanização graças aos ranços da moral religiosa. Bergman em sua filmografia nos faz desconfiar de pessoas que falam demais de Deus... E, se analisamos ao redor, vemos que a informação não passa ao largo da realidade. Pessoas que se escondem em maneirismos, repreendendo suas próprias frustrações, desejos e taras (quando não para atingirem seus objetivos sejam eles financeiros, políticos ou de escalada social), perdem sua humanidade mascarando-a em sentimentos infinitamente piores como falsidade, hipocrisia e crueldade avalizados pelos textos bíblicos.

A três irmãs apresentadas em Gritos e Sussurros encaixam-se nesta conveniência hipócrita, evitando ao máximo transmitir ternura, limitando-se a declará-la em frases átonas.

Uma das irmãs, doente terminal, é talvez a que tenta em vão extrair essa humanidade petrificada das duas outras, mas a única ternura vem da ama que perdera o rebento, e assim como o leite que se esvai de um peito sem filhos pra alimentar, ela dedica seu carinho a essa mulher crescida.

As poucas figuras masculinas que figuram são hediondas, ríspidas, os chamados “varões” que de tão brutalizados (como figuras masculinas típicas da bíblia) perdem a própria dignidade num jogo egótico, utilizando-se das três como peões, que aí, como manda a cartilha, desprendem um amor romântico formalizado.

Esta alma expressa por Bergman é claustrofóbica e pulsante, parecendo cada vez mais se fechar sobre elas, uma alma que conforme se retrai, parece petrificar gerando uma angústia inversamente proporcional. Sua “membrana” belissimamente fotografada pelo gênio Sven Nykvist traduz em cores e luz toda a complexidade da mente etérea do diretor.

Bergman ganhou da crítica o título de deus, mas Bergman não era divino, até porque o adjetivo lhe seria ofensivo. Ao contrário, possuía um humanismo e uma noção de fraternidade que muitos santos dariam a auréola para ter, ainda mais em tempos em que se fala da beatificação de Pio XII.

O filme “Gritos e Sussurros” será exibido neste sábado dia 25/10 às 19:30h

No SESC Cineclube Silenzio.

A entrada é gratuita.