20.5.10

27 a 29/05 - Trilogia de Apu + Oficina de Roteiro II

De 27 a 29/05 de 2010
Mostra Satyajit Ray (Trilogia de Apu) + Oficina Roteiro II (20 Vagas) Inscrições Abertas!!!
No SESC Cascavel - Entrada e Inscrição Grátis





Satyajit Ray foi um dos melhores e mais conhecidos diretores de cinema da Índia. Nasceu em Calcutá, no segundo dia de maio de 1921 e faleceu em 1992. Ganhou importantes prêmios internacionais e por duas vezes consecutivas foi apontado o melhor diretor no Festival de Berlim. Recebeu um Oscar Honorário em 1991 pelo conjunto da obra. De uma família de intelectuais, era formado em Ciência Empresarial e Física. Em 1947, ajudou a fundar a Calcutta Film Society. Ray trabalhou como diretor assistente do cineasta francês Jean Renoir, quando este filmava O Rio Sagrado (1951) na Índia. Conheceu posteriormente o italiano Vittorio De Sica e o neo-realismo, que acabou influenciando-o na realização de ´A Canção da Estrada - que integra a sua Trilogia de Apu, sobre um típico personagem indiano.


Trilogia de Apu: um breve olhar para uma grande obra imortal

Como se possível resumir, é importante – para aqueles que não conhecem sua história e obra – saberem ao menos um pouco sobre um dos maiores cineastas da Índia: Satyajit Ray. Vindo de uma família de artistas, Ray nasceu em Calcutá em 1921 e, após um período trabalhando como artista comercial, ele encontrou-se com o universo do cinema através de sua experiência ao ver pela primeira vez o filme Ladrões de Bicicleta e de conhecer o cineasta francês Jean Renoir, com quem trabalhou posteriormente como assistente de direção no filme O Rio Sagrado. Ao longo de toda sua carreira dirigiu 37 filmes, dentre ficções, documentários e curtas-metragens. Um pequeno sopro para uma leve idéia de quem foi Satyajit Ray.

Em 1955 Ray dirigiu seu primeiro filme, que viria a se tornar uma famosa trilogia, conhecida por Trilogia de Apu. O primeiro deles, A Canção da Estrada é talvez o mais belo dos três, uma obra de poesia pura, crueza, delicadeza para com a história que se propõe a contar e uma visão estética e simbólica que rememoram não só sua influência com Renoir e o Neo-Realismo Italiano, mas a interessantíssima junção dessas influências com o cinema clássico americano dando início a uma obra também particular, de um cineasta com fortíssimos traços do cinema de autor tão refletido pelos pensadores da Nouvelle-Vague.

Uma das maiores qualidades desta trilogia é o fato dela transcender sua localidade, sem deixar de estar enraizada nos valores, costumes, religião e cultura indianos. Mesmo construindo filmes que refletem completamente uma realidade vivida na Índia, Ray os transformou em algo universal, atemporal. A história de Apu poderia ser a de muitos, assim como os sentimentos ali desaguados em cada personagem.

A Canção da Estrada é o princípio de uma história que terá como personagem central, Apu. Uma família vive numa aldeia em Bengal, nos anos 20. Esposa, marido, filha (Durga) e bisavó são apresentados pouco a pouco nesse filme cuja paciência é a maior virtude. Paciência com a construção e evolução dos personagens, duração dos planos, economia de cortes, ampliação do quadro revelando o que guarda em seu extracampo, muitas vezes desvendando nele o personagem que interage com aquele inicialmente enquadrado pela sua câmera.

É como se Ray refletisse de uma maneira semelhante à de Orson Welles, em sua explicação à predileção pelo uso da profundidade de campo: para Welles, esta maneira de filmar possibilita ao espectador escolher (assim como no teatro) o ponto que prefere observar, sem privá-lo de poder acompanhar qualquer detalhe da cena. No caso de Ray, ao abrir seu enquadramento, ele não somente apresenta essa possibilidade de escolha, como dá igual importância à ação e reação de todos os presentes.

Outra estratégia muito usada por ele é na mesma seqüência entrarem e saírem (do quadro) personagens que participam da situação. Um dos exemplos marcantes é a discussão da mãe com a bisavó por causa das frutas que Durga rouba para ela. A seqüência se inicia após a mãe ouvir sua cunhada reclamar dos roubos da menina e de sua má educação. Durga deixa a fruta roubada junto da cesta da avó que a percebe assim que a mãe entra na aldeia. Ela chama pela filha, pergunta onde está a fruta roubada e a manda devolver. No corte, temos a avó molhando as plantas enquanto a menina passa ao fundo do quadro. O corte nos leva à mãe lamuriosa e à avó que entra lentamente no quadro, para iniciar a conversa das duas.

bisa

Na metade do filme, uma nova discussão entre elas é iniciada em uma montagem paralela que acompanha a mãe e a bisavó e simultaneamente, Durga e Apu no arrozal. Nessa seqüência é extremamente marcante o uso do simbolismo por Ray. A figura do trem marca toda a trilogia, não somente como representante de uma passagem, como de uma tragédia que desencadeará uma mudança. A mãe expulsa a avó da aldeia numa cena toda entremeada por cortes entre as duas até o momento em que elas se encontram no plano e a avó vai embora para morrer na floresta. Enquanto isso, Durga e Apu ouvem o barulho do trem e somente Apu consegue vê-lo. Ao retornarem para a aldeia, as duas ações se encontram. Durga vê a avó encolhida na floresta e percebe sua morte.

A sutileza de sua narrativa é revelada pelo interesse que Ray demonstra ter com seus personagens, sejam eles os seres humanos presentes ali, seja a natureza, que é filmada como parte pertencente da trama, dos dramas, das redenções. As expressões são intensamente valorizadas, em planos-detalhes dos olhares reagindo, das mãos calejadas, dos pés caminhando, do silêncio que Ray parece reconhecer ser a mais expressiva das linguagens. A natureza funciona como um catalisador, um ser vibrante que pressente, atua, interage, reflete estados d´alma. A seqüência que prenuncia o temporal no qual Durga irá banhar-se numa espécie de “dança da morte” inicia-se com diversos planos do rio, do vento, das gotículas de chuva na água. Quando da morte do pai deles, assim que ele desfalece, os pássaros voam alto e vemos o rio ao fundo e a cidade continuando seu caminhar.

durga

A presença da natureza como ser vivo que permanecerá após aqueles desastres traz à memória um poema de Fernando Pessoa que poderia ter acompanhado os planos e catarses dessa trilogia. Diz ele:

“Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.”

Como se Ray soubesse que apesar da força de seus personagens, de sua importância, o que ele retrata para além de qualquer coisa é a força do cinema representada por essa beleza estética e viva da natureza. E isso certamente deverá continuar no findar de seus filmes.

É interessante a maneira como Ray insere Apu e coloca sua presença lentamente como protagonista da história. Em A Canção da Estrada ele é uma criança que percebe o seu redor, mas não possui discernimento para compreendê-lo racionalmente. É um filme todo conduzido pelas suas mulheres, uma vez que o pai de Apu, pregador e constante frustrado em suas tentativas de trazer dinheiro para casa, está quase sempre ausente. A mãe de Apu é o coração de tudo, o olhar que mais acompanhamos, a angústia presente em cada cisão, em cada ausência. É ela que aparece em quase todas as seqüências do filme, seja através de sua voz chamando os filhos, seja através de sua dureza racional claramente adquirida com a dor dos anos de escassez.

Apu cresce logo após conhecermos todo seu passado, as agruras pelas quais sua família passou, as perdas que o tornaram um idealista nato. Todos os personagens parecem ter igual importância em sua saga, como se ao conhecê-los, pudéssemos adentrar o universo de Apu de forma mais completa, verdadeira.

No segundo filme da trilogia, O Invencível, Apu e seus pais seguem para outra cidade, já na ausência da bisavó e de Durga. Apu vai criança; lá, chega à adolescência. Nesse ínterim, convive com outras pessoas, faz novos amigos, intensifica seu desejo de estudar, de ir além das barreiras que foram impostas desde o início. Perde o pai e a mãe na continuidade de sua jornada, decide ir trabalhar em Calcutá.





O título do filme colocando-o como “invencível” demonstra certa ironia, uma ironia da própria vida retratada, que lhe tirou tudo e somente restou ele próprio e seus sonhos. A morte de sua mãe, além de muito bela, acompanha um dos simbolismos mais fortes para o personagem de Apu até então. Ele chega à aldeia após receber um aviso de que ela estava doente. Não a encontra e a câmera acompanha seu tio ao longe, em uma expressão que irá se repetir na vida de Apu, significando a impossibilidade de ele reencontrar quem procura. Apu senta-se defronte uma árvore e Ray abre seu enquadramento, deslocando a câmera para o lado esquerdo e evidenciando ao fundo de um Apu imerso em lágrimas, todo um extenso campo, uma imensidão da qual não se vê seu final, numa espécie de metáfora do que havia restado para ele. Seu mundo, o mundo de Apu.

Para concluir a trilogia, O Mundo de Apu. Este terceiro filme já não possui cenários tão belos como o primeiro, a natureza (principalmente em seu início) não está tão presente. Apu está adulto, é um intermediário em ciências e, após frustrar-se com a idéia de dar aulas, decide escrever uma novela autobiográfica e tornar-se escritor. A câmera agora o acompanha quase que por inteiro em seus silêncios, em sua solidão, em sua rotina. Não há muito espaço para que o acompanhem no quadro, uma vez que Apu encontra-se praticamente sozinho e em espaços cada vez menores. Após encontrar-se com um amigo que o convence a acompanhá-lo no casamento da prima, Apu depara-se com a possibilidade de alterar seus caminhos casando-se com a moça.

apu

Ray não abandona a ternura, ela cresce neste filme aos poucos, à medida que Apu e Aparna se apaixonam. Dessa vez o conduzir da narrativa não deixa espaços para prenúncios de nenhum desastre através da natureza, como nos outros dois filmes. A catástrofe final que acompanhamos de Apu vem toda seca, sem avisos, sem espaço para podermos respirar. Aparna morre no parto do filho de Apu, que passa 5 anos com a família da mãe sem conhecer o pai. O Mundo de Apu, ainda que um filme que força mais a racionalidade e o crescimento de seu personagem agora só, é uma profusão de pequenos instantes simbólicos e majestoso uso de imagens como metáforas. Um exemplo se dá num belíssimo raccord da avó de Aparna chorando diante do berço do bebê, em que, após seu suspiro a imagem se prolonga até a onda do mar que um Apu desiludido observa. É um filme que simboliza a quase desistência, o rompimento com a idéia de “invencibilidade”, uma imensidão de um mundo e uma nova ironia de Ray. O “mundo de Apu” para ele é quase nada.

A redenção desta vez vem com a ajuda da natureza, como se pudéssemos enfim fazer as pazes com ela. Em sua viagem, Apu observa o mar (como dito acima), vê as montanhas, observa as árvores na floresta como que retomando seus próprios passos. Lá, ele abandona as páginas de sua autobiografia e deixa para trás a estrada, o passado, o trem que se foi. Apesar de todos os tristes passos, Ray finaliza sua saga com um sorriso, um traço de esperança.



filho



A realidade da Trilogia de Apu é dura, cruel, seca. A vida ali é paradoxalmente repleta de vida (ainda que entremeada de tantas mortes), de natureza, sons, movimento. Os planos são belíssimos, os olhares intensos, os raros sorrisos, memoráveis. Ray passeia entre o bem e o mal, a saúde e a doença, a vida e a morte, numa doçura e realismo impressionantes. Sua maneira de dissecar a realidade social da Índia traz à memória Rio 40 Graus, do brasileiro Nelson Pereira dos Santos, filme contemporâneo a Canção da Estrada. A forma com que a câmera imerge nos ambientes, apresenta seus personagens, os encara sem julgá-los, os acompanha sem ilusões. Um cinema dito “novo”, que vem com a força do real e a intensidade dos grandes poetas.

Apesar de serem filmes permeados por muitas tragédias, fome e pobreza, há sempre uma idéia de esperança em seus planos, em sua construção cênica. Essa parece ser, para além da história que ele sabe muito bem contar, uma esperança no cinema, em seu potencial e sua força artística.

Filmes Citados:

Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette,1948/Vittorio De Sica)

A Canção da Estrada (Pather Panchali,1955/Satyajit Ray)

O Invencível (Aparajito,1956/ Satyajit Ray)

O Mundo de Apu (Apur Sansar,1959/ Satyajit Ray)

Rio 40 Graus (idem, 1955/Nelson Pereira dos Santos)

http://www.filmespolvo.com.br/site/artigos/raccord/495



27/05 - 19:30h - A CANÇÃO DA ESTRADA (1955, Índia, 115 min)

Uma das obra-primas do cinema mundial, incompreensivelmente inédita no Brasil e nas Américas. Este filme foi a estreia espetacular de Satyajit Ray. Recuperada a finais dos anos 90, pois um incêndio destruiu os negativos originais, esta é a primeira fita, que deu origem a TRILOGIA DE APU. Nele se narra a comovente história de uma família de Bengali perseguida pela má sorte. O pai, Harihara, é um sacerdote mundano, curandeiro, sonhador e poeta. Sabajaya, a mãe trabalha para alimentar a uma família, que recebe com alegria e esperança a chegada de um novo filho, Apu.



28/05 - 19:30h - O INVENCÍVEL (1956, Índia, 104 min)


APARAJITO, como os outros títulos da Trilogia de Apu, é também inédito nas Américas, mas que desde sua estréia nunca deixou de aparecer entre os Cem Melhores Filmes da História. Recuperada nos finais dos anos 90, pois um incêndio também destruiu os negativos originais, este filme foi realizado por Satyajit Ray por causa do sucesso de PATHER PANCHALI (A Canção da Estrada) e mostra a juventude de Apu em Benaré, seu desejo de independer-se e estudar em Calcutá, para poder levar uma vida diferente da que havia conhecido com seus pais.



29/05 - 19:30h - O MUNDO DE APU (1959, Índia, 100 min)


Com APUR SANSAR (O Mundo de Apu), Satyajit Ray concluiu a Trilogia de Apu e assim criou a melhor e mais bela trilogia da História do Cinema. Apu logrou tragicamente sua ânsia de independência e sente reforçada sua ânsia de conhecimento. Os desejos de escrever, sonhar e amar parecem cumprir-se ao conhecer Aparna e contrair matrimônio. Recuperada a finais dos anos 90, depois do incêndio que destruiu os negativos originais, é uma obra-prima do cinema mundial, e uma das mais ternas e sensíveis histórias de amor, que, até a presente edição, permanecia inédita nas Américas.

OFICINA DE ROTEIRO II


Dia 29/05

Das 09h às 12h

Das 14h às 17h

13.4.10

De 22 a 24/04 de 2010
Mostra Alejandro Jodorowsky + Oficina Direção I (20 Vagas) Inscrições Abertas!!!
No SESC Cascavel - Entrada e Inscrição Grátis





Jodorowsky iniciou a carreira no cinema incompreendido pelo público. Era 1968, exibição de Fando e Lis no Festival de Acapulco no México. O diretor teve que sair do teatro pela porta dos fundos. Já o segundo longa-metragem, lançado timidamente numa madrugada de 1970, nos Eua, ganhou enorme repercussão, devido à admiração expressa de John Lennon e Yoko Ono, que assistiram incidentalmente à pelicula. El Topo obteve assim bilheteria expressiva e ficou marcado como o primeiro "midnight movie", mudando para sempre a estratégia de promoção dos filmes underground. Cineasta, dramaturgo, literato, ensaísta, tarólogo e especialista em psicomagia, Jodorowsky é fundador do Teatro Pânico com os surrealistas espanhóis Arrabal e Topor. É também reconhecido como grande autor de histórias em quadrinhos, e considerado um dos precursores da arte multimídia. Ícone da arte contemporânea é um artista típico da contracultura européia dos anos 60, 70. No entanto, devido a anos de litígio entre o cineasta e seu produtor, há até pouco tempo o público não tinha acesso a sua obra, a não ser por exibições clandestinas ocasionais. No Brasil, a cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro fez raras exibições. Mas em 2007, quando o Centro Cultural Banco do Brasil realizou o festival em sua homenagem, apresentando seus sete filmes, mais pessoas puderam conhecê-lo. Na ocasião foi realizada parceria com o Sesc, com o propósito de ampliar a visão acerca da arte do cineasta. A Mostra Jodorowsky promovida pelo SESC exibe seus quatro primeiros trabalhos.

Data: 22, 23 e 24 de Abril
Local: Salão Social - Sesc Cascavel
Horário: Sempre às 19h30


22 de Abril

Filme - El Topo , 1970. 125 min.

23 de Abril

Filme - Fando & Lis , 1968. 93 min.
Intervalo
Filme - La Cravate , 1957, 20 min.


24 de Abril

Filme - A Montanha Sagrada , 1973, 114 min.


*Todos os filmes serão complementados por um debate técnico.
*Entrada Gratuita



Oficina - Direção I


Dia 24 de abril - sábado

Carga horária - 6h
Ministrante - Vander Colombo
Horário: Das 09h00 às 12h00 e das 14h00 às 17h00.
Ementa: Pré-produção - interpretação de roteiro, escolha de atores, direção de atores, exercícios com atores, ensaio, preparação de cena, planos de cobertura. Análise do olhar sobre imagens, enquadramento, movimentos de câmera, eixo.
*Oficina gratuita
*vagas limitadas - reservar vaga antecipadamente no Sesc Cascavel (45) 3225-3828 com Lysiane.




18.3.10

2a Mostra CineSESC + Oficia Teoria, Análise e Crítica I

De 25 a 27/03 de 2010
Mostra Primeiros Nouvelle Vague + Oficina Teoria, Análise e Crítica Cinematográfica I (20 Vagas)
No SESC Cascavel - Entrada e Inscrição Grátis





Em 2010, o projeto CineSesc será apresentado num novo formato. A proposta é levar ao público o cinema por meio de mostras temáticas, que serão realizadas mensalmente e com programação complementar à exibição. A programação, pensada pelo SESC PR, visa a utilização do acervo de maneira sistemática, com eficiência, mais visibilidade junto ao público e desenvolvimento da área de cinema. Ao todo serão 10 mostras, compostas por três filmes cada uma delas e realizadas de fevereiro a novembro, totalizando 30 filmes no ano.
As oficinas também totalizarão 10 formando assim um intensivo de cinema de 60 horas (pré-produção/produção/pós-produção) até o fim do ano.

Em março: Primórdios da Nouvelle Vague

25/03 - Os Incompreendidos: (19:30h)

Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é o filho negligenciado de Gilberte Doinel (Claire Maurier), que parece ter tempo para tudo menos o bem-estar da criança. Julien Doinel (Albert Rémy) não é o pai biológico, mas cria o menino como se fosse seu filho. Gilberte está tendo um caso e não se surpreende quando, por acaso, Julien fica sabendo que Antoine não está indo à aula, pois ela sabia que na hora do colégio o filho a tinha visto com seu amante. A situação se agrava quando Antoine, para justificar sua ausência no colégio, "mata" a mãe. Quando seus pais aparecem na escola, a verdade é descoberta e Julien o esbofeteia na frente de seus colegas. Após isto ele foge de casa e arruma um lugar para dormir. Paralelamente seus pais culpam um ao outro pelo comportamento dele, após lerem a carta na qual ele se despede. No outro dia Antoine vai à escola normalmente. Lá sua mãe o encontra e se mostra preocupada por ele ter passado a noite em uma gráfica. Ela alegremente o aceita de volta, mas os problemas não acabam. Antoine se desentende com um professor, que o acusa de plagiar Balzac. Como ele odeia a escola, sai de casa de novo e para viver é obrigado a fazer pequenos roubos.
frança 1959 - 99 min.


26/03 - Acossado: (19:30h)

Após roubar um carro em Marselha, Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) ruma para Paris. No caminho mata um policial, que tentou prendê-lo por excesso de velocidade, e em Paris persuade a relutante Patricia Franchisi (Jean Seberg), uma estudante americana com quem se envolveu, para escondê-lo até receber o dinheiro que lhe devem. Michel promete a Patricia que irão juntos para a Itália, no entanto o crime de Michel está nos jornais e agora não há opção. Ele fica escondido no apartamento de Patricia, onde conversam, namoram, ele fala sobre a morte e ela diz que quer ficar grávida dele. Ele perde a consciência da situação na qual se encontra e anda pela cidade cometendo pequenos delitos, mas quando é visto por um informante começa o final da sua trágica perseguição.
frança 1960 - 90 min.


27/03 - Hiroshima, Mon Amour: (19:30h)

Hiroshima, 1959. Uma atriz francesa casada (Emmanuelle Riva) veio de Paris para trabalhar num filme sobre a paz. Ela tem um affair com um arquiteto japonês (Eiji Okada) também casado, cuja esposa está viajando. Nos dois dias que passam juntos várias lembranças vêem à tona enquanto esperam, de forma aflita, a hora da partida dela.
frança 1959 - 90 min.



OFICINA DE TEORIA, ANÁLISE E CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA.


Dando continuidade à Oficina de Roteiro I, essa oficina tratará de desvendar os conceitos por trás da chamada Teoria do Cinema que é o embasamento para a crítica cinematográfica com nomes como os de Béla Balázs e Serguei Eisenstein. O olhar analítico sobre o cinema ajudará a dar os primeiros passos no aperfeiçoamento do roteiro.


Sábado dia 27/03
Das 9hrs às 12hrs
Das 13:30hrs às 16:30hrs


Esperamos todos lá.

3.2.10

I Mostra CineSESC 2010 - Cinema & Música (de 25 a 27/02) + Oficina

De 25 a 27/02 de 2010
Mostra Cinema & Música + Oficina Roteiro I (20 Vagas)
No SESC Cascavel - Entrada e Inscrição Grátis





Em 2010, o projeto CineSesc será apresentado num novo formato. A proposta é levar ao público o cinema por meio de mostras temáticas, que serão realizadas mensalmente e com programação complementar à exibição. A programação, pensada pelo SESC PR, visa a utilização do acervo de maneira sistemática, com eficiência, mais visibilidade junto ao público e desenvolvimento da área de cinema. Ao todo serão 10 mostras, compostas por três filmes cada uma delas e realizadas de fevereiro a novembro, totalizando 30 filmes no ano. A primeira Mostra denominada Cinema e Música sob curadoria do SESC PR abrirá a programação deste projeto.

As oficinas também totalizarão 10 formando assim um intensivo de cinema de 60 horas (pré-produção/produção/pós-produção) até o fim do ano. A primeria tratará dos princípios básicos de construção de personagem, argumento e roteiro. As inscrições já estão abertas e não há taxa alguma. A turma fechará com as 20 primeiras inscrições.


Programação:

25/02 - Quinta-Feira

Abertura da Mostra às 19h30.
Exibição do Filme - Piaf: Um Hino ao Amor (La Môme) - Oliver Dahan, 2007. 140 min.
Debate após a sessão com Coquetel.
26/02 - Sexta-Feira
Início às 19h30.

Exibição do Filme - Dançando no Escuro (Dancer in the Dark) - Lars von Trier, 2000. 140 min.
Debate após a sessão.


27/02 - Sábado
Oficina de Roteiro para Cinema I -
(
A narração cinematográfica, Gênese de Personagem, Elaboração de argumento, Jogos de construção de roteiro)

Horários da Oficina:
Das 09h00 às 12h00
Das 13h30 às 16h30

Início da Sessão às 19h00 com a Apresentação Musical "Cartola", em que serão apresentadas através do Quinteto Jazz Brasil algumas das composições do sambista Cartola, que introduzirão o clima da última exibição da Mostra:
Cartola - música para os olhos
- Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2007. 88 min.

Debate após a sessão de Cinema e Encerramento.



Sinopses dos filmes:

Piaf um hino ao amor: (25/02 às 19:30hrs) Abertura com Coquetel:
A vida de Edith Piaf (Marion Cottilard) foi sempre uma batalha. Abandonada pela mãe, foi criada pela avó, dona de um bordel na Normandia. Dos 3 aos 7 anos de idade fica cega, recuperando-se milagrosamente. Mais tarde vive com o pai alcoólatra, a quem abandona aos 15 anos para cantar nas ruas de Paris. Em 1935 é descoberta por um dono de boate e neste mesmo ano grava seu primeiro disco. A vida sofrida é coroada com o sucesso internacional. Fama, dinheiro, amizades, mas também a constante vigilância da opinião pública.

Dançando no Escuro (26/02 às 19:30hrs):
Selma Jezkova (Björk) é uma mãe solteira portadora de uma doença hereditária na visão. Tentando impedir que seu filho fique cego como ela está ficando, Selma trabalha o máximo que pode para economizar e pagar sua operação. Só que quando um vizinho amigo passa por problemas financeiros e a rouba, têm-se início uma série de trágicos acontecimento que mudarão para sempre os rumos de sua vida.

Cartola - Música para os Olhos (27/02 às 19:00hrs com abertura musical do Quinteto JazzBrasil):
Documentário que conta a história de Cartola, um dos compositores mais importantes da música brasileira e também um dos expoentes mais nobres do samba.

18.11.09

21/11 - Meu Tio (Jacques Tati) ÚLTIMA SESSÃO DO ANO

Neste Sábado dia 21/11 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA





Meu Tio (Mon Oncle)

O humor explode quando o excêntrico herói Monsieur Hulot de Jacques Tati deixa a ultra moderna casa de seu cunhado e vai para uma anti-séptica fábrica de tubos de plásticos. Tati dirige e estrela a segunda aparição do personagem Hulot. Uma deliciosa sátira da vida mecanizada. "Meu Tio" marca a segunda aparição do personagem Monsieur Hulot, anteriormente apresentado em "As Férias de Monsieur Hulot"(1953). Tati, com seu humor terno e grande poder de observação, criou esta deliciosa sátira a modernidade e ao consumo desenfreado. Com vários momentos inesquecíveis (a casa onde tudo é desconfortavelmente arrumado, limpo e mecanizado; todas com o sobrinho; as de Hulot na fábrica e andando pelos vários andares e compartimentos do seu apartamento, etc), Tati, com toda sua mestria, criou uma obra que é puro encantamento !


Atores Jacques Tati, Jean Pierre Zola, Adrienne Servantie, Lucien Fregis, Betty Schneider,
Direção Jacques Tati,
Idioma Francês,
Legendas Português,
Ano de produção 1956
País de produção Franca,
Duração 116 min.


* Oscar® (1958):
Vencedor de melhor filme estrangeiro.

* Cannes (1958):
Prêmio especial do juri.

* Associação dos Críticos de Nova York:
Vencedor de melhor filme estrangeiro.



Enquanto mostra sua casa, comenta a viciada em limpeza Madame Arpel com sua vizinha “E essa é minha sala de estar”, que prontamente responde “Ela é um pouco vazia, não?”. Surpresa, a anfitriã retruca: “Mas é moderno!”. A óbvia relação entre vazio e moderno é atual, mas Jacques Tati havia nos avisado disso lá em 1958, ao lançar Meu Tio, seu filme francês de menor sucesso comercial à época, mas o mais reconhecido (tardiamente), tendo, inclusive, conquistado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na premiação do ano seguinte.

Aparentemente simples e direto, conta a história de uma família totalmente dependente da tecnologia fútil, tudo automatizado e superficial; e até hoje penso se o fato do chefe da família e da madame Arpel serem gordinhos foi mera coincidência ou se Tati já estava criticando o ócio da sociedade perante a automatização. O fato é que o filho do casal, Gerard, vê aquilo tudo com tédio e desgosto, tanto que é muito mais próximo de seu atrapalhado tio Hulot, interpretado pelo próprio Tati, um sujeito gente boa, mas bem desligado das coisas que está fazendo, acabando sempre caindo em confusões por isso.

Ao passo em que vamos acompanhando as críticas feitas por Tati, percebemos que todas elas podem ser vistas atualmente. Pense, por exemplo, na empregada com medo de passar nas luzes e ser eletrocutada; nos dias de hoje, ela teria medo de pegar câncer. Mas não há como não se impressionar com a fluidez e simplicidade que a história é contada pelo roteiro: tudo vai acontecendo devagar, sem explicações redundantes, ou você capta o que ta assistindo ou se perde em meio aos diversos efeitos sonoros que o filme apresenta para brincar com nossos raciocínios.

Só que essa simplicidade é superficial, pois o longa é lotado de pequenos detalhes que o enriquecem de maneira fantástica: o muro que divide a cidade moderna vazia da “realidade” na periferia em que vivem a maioria dos personagens, incluindo o simpático Sr. Hulot, pode ser percebido também como divisor desse contraste óbvio entre dois mundos completamente distintos (algo acentuado ainda mais nos dias de hoje, a desigualdade social).

E dito isso, volto a falar do pequeno Gerard: do lado “moderno” da cidade, onde ele pode brincar com seus trens e bolas, o menino está sempre fechado e só ri quando seu tio, vindo do "outro lado", começa a aprontar suas trapalhadas. Porém, quando o garoto está neste lado mais humilde, fica com os outros jovens, aposta moedas para fazer travessuras, come sonhos gigantes feitos por um doceiro de mão suja, enfim, diverte-se da forma mais ingênua e sincera que uma criança é.

Aproveitando a deixa da diversão, gostaria de comentar o ponto crucial para o filme funcionar: as piadas. Apesar das críticas e conteúdo, Tati não fez um filme chato ou pesado. Baseado no choque de características de seus personagens, diversas cenas hilárias são criadas, fazendo desde crianças até adultos rirem com tiradas inteligentes e ingênuas no melhor estilo “Chaves” de ser. Sr. Hulot é um personagem que não fala, seus atos são todos “Chaplinianos”, reforçados por uma genial marcação de efeitos sonoros que brinca a todo momento com o contraste entre imagem e som. A seqüência em que Charles Arpel estaciona seu carro, enquanto o velhinho levanta o braço para evitar uma colisão e, ao mesmo tempo, interrompe o som é genial. Como dito anteriormente, esses efeitos são importantíssimos para a compreensão do que está acontecendo e para a construção geral do longa.

Não lembro onde li algo sobre músicas que pode ser repetido para os filmes: “aquela que você ouve e gosta instantaneamente, ouvirá um mês e irá enjoar dela; agora aquela que você vê e não sabe se gostou ou não é a que ficará marcada para sempre”. É bem essa a sensação de ver Meu Tio hoje, depois de tantos anos e tantos filmes lançados e perceber, curiosamente, que apesar de falar de tecnologia é mais atual que muitos trabalhos lançados hoje. É o tipo de filme que vamos assistir mais de uma dezena de vezes e gostar de todas elas, cada vez mais.


Por Rodrigo Cunha

7.11.09

9 a 14 de Novembro - MOSTRA DE CINEMA FRANCÊS CONTEMPORÂNEO

Mostra de Cinema Francês Contemporâneo.


Em comemoração ao Ano da França no Brasil, o SESC juntamente com a République Française e o MinC, tem o orgulho de apresentar a Mostra de Cinema Francês Contemporâneo sob curadoria de uma das mais importantes publicações cinematográficas do mundo, a CAHIERS DU CINÉMA, para a qual já escreveram nomes como André Bazin, Jean-Luc Godard e François Truffaut.

CLASSIFICAÇÃO: 16 Anos


PROGRAMAÇÃO


Dia 09/11 (segunda-feira)– 19:30hrs ABERTURA – COQUETEL e DEBATE


TUDO PERDOADO

Tout est pardonné (França 2007). De Mia Hansen-Løve. Com Paul Blain, Constance Rousseau, Marie-Christine Friedrich, Carole Franck, Olivia Ross, Victoire Rousseau. Drama em cores. Duração 105’.

Victor vive em Viena com Annete, sua esposa, e sua filha Pamela. É primavera. Fugindo do trabalho, Victor passa os dias fora, brinca com a filha e vadia no parque. Apaixonada, Annete está confiante que ele tomará jeito. Mas Victor não abandona os maus hábitos e acaba se apaixonando por uma jovem junkie. Onze anos depois, Pamela descobre que o pai vive na mesma cidade e decide vê-lo novamente.


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Dia 10/11 (terça-feira) – 20hrs A ESQUIVA

L’Esquive (França, 2003). De Abdellatif Kechiche. Com Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Ouazan. Drama romântico em cores. Duração 117’.

Em um conjunto habitacional no subúrbio parisiense, um anjo passa declamando apaixonadamente versos da peça Le jeu de l’amour et du hasard. É Lydia, embalada por Marivaux e às voltas com os ensaios do espetáculo a ser montado por sua turma de sala de aula para as festividades da escola. Já Abdelkrim, apelidado de “Krimo”, no auge dos seus 15 anos, “está de quatro” pela sua colega de sala. Ele, que se arrasta levando seu tédio pelas quebradas suburbanas em companhia de sua galera, descobre repentinamente o amor. Mas Krimo não é do gênero expansivo, alem de ter que manter a fachada. Então como se declarar sem perder a pose? Uma solução se impõe: corromper seu amigo Rachid, parceiro de cena com Lydia, para obter o papel de Arlequim. O que Krimo não ousa dizer, Marivaux o fará em seu lugar.



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Dia 11/11 (quarta-feira) – 19hrs

POVOADO NUMBER ONE

Bled Number One(França/Argélia, 2006). De Rabah Ameur-Zaimèche. Com Jeanne Balibar, Rabah-Ameur Zaimèche. Drama em cores. Duração 100’.

Mal saiu da prisão, Kamel é expulso da França para seu país de origem, a Argélia. Esse exílio forçado o leva a observar com lucidez um país em plena transformação dividido entre o desejo de modernidade e o peso das tradições ancestrais.


ATÉ JÁ

A tout de suíte (França, 2004). De Benoit Jacquot, com Isild Lê Besco, Nicolas Duvauchelle, Ouassini Embarek. Drama em cores. Duração 95’.

Ao desligar o telefone depois de um "até já" do namorado, ela sabe muito bem sem saber ainda aquilo que ela nem imaginava: aquele que ela ama, aquele "príncipe" de parte alguma é um bandido. Ele acaba de cometer um assalto, há mortos. Estamos nos anos 70, ela tem 19 anos e, como num sonho acordado, salta do espaço restrito do apartamento paterno - de longos corredores, num belo bairro - e mergulha de cabeça numa geografia fugitiva - da Espanha para o Marrocos e para a Grécia - passando de uma vida de garota normal para a vida que ela escolheu, com suas delícias e conseqüências.


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Dia 12/11 (quinta-feira) – 19hrs

O ÚLTIMO DOS LOUCOS

Le dernier des fous (França, 2006). De Laurent Achard, Com Julien Cochelin, Annie Cordy, Pascal Cervo, Dominique Reymond, Dorine Bouteiller, Jean-Yves Chatelais, Florence Giorgetti, Thomas Laroppe, Fattouma Ousliha Bouamari Drama em cores. Duração 95’.

É verão e começo das férias. Martin tem 11 anos, vive na fazenda de seus pais e observa, desamparado, a desunião de sua família: sua mãe vive enfurnada em seu quarto, seu irmão mais velho, que ele adora, se afoga no álcool e seu pai é dominado pela avó. O menino assiste a um desastre familiar. Mas Mistigri, seu gato, e Malika, uma amiga marroquina, procuram reconfortá-lo de alguma forma...


ASSASSINAS

Meurtrières (França, 2006). De Patrick Grandperret, Com Hande Kodja, Céline Sallette, Gianni Giardinelli, Anaïs de Courson, Isabelle Caubère, Shafik Ahmad, Karine Pinoteau, Marc Rioufol, Eugene Durif, Teiva Airault, Raja Aïtou. Drama policial em cores. Duração 97’.

Nina e Lizzy. O encontro de duas jovens normais e um pouco frágeis. Entre elas, uma identificação imediata... Juntas, elas são fortes, eufóricas. Sem muita sorte, nem muito dinheiro, elas tem apenas seus sonhos. Duas jovens em busca do amor. Cada instante que passa, cada encontro lhe fecha um pouco mais as portas de um mundo que elas não tem as chaves. Com nada no bolso, não se vai longe, ou diretamente muito longe...


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Dia 13/11 (sexta-feira) – 20hrs

DE VOLTA À NORMANDIA

Retour en Normandie (França, 2007). De Nicolas Philibert, Com Anne Borel, Claude Hébert, Nicolas Philibert, Nicole Picard. Drama documental em cores. Duração 113’.

Em 1975, Nicolas Philibert foi assistente de direção de René Allio em Eu, Pierre Rivière, que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão, baseado em um crime local descrito em livre pelo filósofo Michel Foucault. Filmado na Normandia, a alguns quilômetros de onde aconteceu o triplo assassinato, o traço mais especial do trabalho de Allio era o fato de todos os personagens do filme terem sido interpretados por camponeses da região. Trinta anos depois, Philibert retorna à Normandia para reencontrar esses atores de ocasião, personagens da vida real.


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Dia 14/11 (sexta-feira) – 20hrs

A FRANÇA

La France (França, 2007). De Serge Bozon, Com Sylvie Testud, Pascal Greggory, Guillaume Verdier, Pascale Bodet, Bob Boisadan, Jean-Christophe Bouvet, Didier Brice, Philippe Chemin, Guillaume Depardieu, Benjamin Esdraffo, Michel Fossiez, Vincent Fraiscinet, Laurent Lacotte, Pierre Léon, Emmanuel Levaufre, François Négret, Cécile Reigher, Laurent Talon, Lionel Turchi, Laurent Valéro, Mehdi Zannad. Drama, Musical, Romance, Guerra em cores. Duração 102’.

No outono de 1917, a guerra prossegue. A milhas de distância do campo de batalha, a jovem Camille leva uma vida marcada pelas notícias que seu marido manda do front. Um dia ela recebe uma carta em que ele termina o casamento. Desnorteada e determinada a continuar a qualquer custo, Camille decide se disfarçar de homem para encontrá-lo. Ela segue direto ao front de guerra, cortando caminho pelos campos para evitar as autoridades. Numa floresta, passa por um pequeno grupo de soldados que não suspeita de sua identidade. Ela os segue e assim embarca numa nova vida, e conforme os dias e as noites passam, descobre o que nunca poderia imaginar, o que seu marido nunca lhe contou e o que seus novos companheiros irão evitar lhe mostrar: a verdadeira França.

5.11.09

07/11 - Mamma Roma (Pasolini)

Neste Sábado dia 07/11 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

O filme marca a trajetória de Mamma Roma (Anna Magnani), uma ex-prostituta que vai atrás do filho abandonado por ela, Ettore (Ettore Garofalo), e que tenta uma vida nova junto com ele na capital italiana. Interpretada magnificamente pela atriz Anna Magnani, a personagem se vê em várias dificuldades sociais como a criminalidade que seu filho se envolve e a sua exploração pelo cafetão Carmini (Franco Citti).

Mamma Roma sonha com uma vida burguesa, mas suas esperanças se confrontam com a realidade. Ela vive em um contexto social que impossibilita a realização de seus sonhos. A vida se mostra mais dura e cheia de desencantos do que ela pode imaginar. Em seu segundo filme, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini faz poesia com cinema em ""Mamma Roma"". Num filme belo, porém ainda marcado pelo neo-realismo que fez escola durante as décadas de 1940 e 1950, o polêmico diretor italiano consegue pôr seu dedo malicioso e cheio de lirismo nessa película produzida em 1962.

Numa retomada dos procedimentos neo-realistas do pós-guerra, Pasolini volta sua câmera para os bairros pobres da periferia de Roma e filma a vida errante dos personagens ao som de Schubert. O filme se mostra belo e mesmo com uma clara influencia ""rosseliniana"". Só Pasolini conseguiria filmar ""Mamma Roma"" com tanto sentimentalismo sem tirar a critica social da base da história.


Ficha Técnica: ""Mamma Roma"", Idem, 1962 - 110 mim, preto & branco. De Pier Paolo Pasolini, com Anna Magnani, Franco Citti, Ettore Garofolo, Silvana Corsini, Luisa Loiano e Paolo Volponi


As Mulheres de Pier Paolo Pasolini (X)

Mamma Roma
“Flor de merda,
me libertei de um laço, agora é a vez de outra mulher ser a escrava” (1)
Sinopse (2) Durante a festa do casamento de Carmine, Mamma Roma canta para os noivos. Logo compreendemos que ela pretende atingir o marido recém-casado, que também é seu ex-cafetão. Quando ela cantarola frases sugerindo a cegueira da recém-casada esposa, esta é chamada a responder em forma de canto. Já lemos na epígrafe acima qual foi a resposta que Mamma Roma cantarolou para a mulher (imagem acima; abaixo, à direita, mãe e filho olham para o cemitério em frente ao apartamento). Em torno daquele banquete de casamento encontramos gente simples. Agricultores que, como um senhor reclama que durante um brinde, chamam pejorativamente de caipiras. Desde os primeiros momentos do filme percebemos que existe uma grande tensão social por baixo daquela festa cheia de risadas e de uma linguagem bem liberal e cheia de ironias. O choque entre essa gente do campo e a nova mentalidade dos grandes centros urbanos é que constitui o pano de fundo dessa estória.

O bem que Mamma Roma quer para seu filho acabará por destruí-lo


Mamma Roma é uma mãe de meia idade cuja vida de prostituta está para melhorar. Pelo menos essa é a opinião dela, pois, com o dinheiro que conseguiu juntar, de uma tacada só poderá se livrar de Carmine (o cafetão) (imagem abaixo, à direita), comprar uma banca de frutas e montar um pequeno apartamento na periferia de Roma. Na nova casa, ela pretende viver com Ettore, seu filho adolescente que até então morava com parentes pobres em Guidonia, uma cidadezinha próxima a Roma. Entretanto, em pouco tempo as aspirações de Mamma Roma entrarão em choque com o temperamento do filho e sua situação como um recém-chegado. Apesar dos esforços dela para ajudá-lo a se adaptar à escola, ao trabalho, a uma motocicleta, as raízes culturais dele dificultam sua sobrevivência nesse novo ambiente. No final, febril Ettore é pego roubando e vai para a prisão. Ele não se debate mais, paralisado e sozinho em sua cela. Talvez morto, talvez esteja em outro lugar. Em Guidonia talvez. E o sonho de sua mãe se dissolve no desespero.
Pasolini e as Mães

A periferia de Roma:
uma janela
para o futuro


As “mães de Pasolini” constroem uma ponte entre passado e futuro através dos filhos. Representam tanto a inalienável verdade das origens quanto o inquieto espírito de sobrevivência no presente. Apesar disso, como condição para se individuar, o filho deverá se relacionar como um “Outro” em relação à sua mãe. Entretanto, ao agir nessa direção, as qualidades de doadora de vida da mãe tornam-se inacessíveis a ele – o que constitui uma grande perda para o filho. A relação entre Mamma Roma e seu filho Ettore será o primeiro exemplo dessa problemática na filmografia do cineasta italiano.

Ao contrário do primeiro filme de Pasolini, Accattone, Desajuste Social (Accattone, 1961), que se ocupava somente das prostitutas de rua na periferia de Roma (embora houvesse duas mães, Ascenza e Nannina), em Mamma Roma (1962) ele adiciona a maternidade e o conflito de gerações à temática das classes desprivilegiadas do pós-guerra na Itália. Pasolini mostra o conflito entre o passado e o presente nessa família de dois, na mesma periferia da Roma do início da década de 60 do século passado.

A outra mãe do filme é Bruna, que representa a Mãe Jovem (Madre Fanciulla) da cultura marginal da favela em Roma. Isso quer dizer que ela reflete o ideal poético pasoliniano da mulher jovem, rústica e de uma simplicidade charmosa. Enquanto o futuro de Mamma Roma aponta para os valores do centro da cidade, Bruna ocupa um espaço antigo e anônimo fora de Roma não muito diferente de Guidonia, a cidade onde Ettore foi criado. É justamente nesses campos abandonados em torno do conjunto habitacional que vive com sua mãe que Ettore encontra Bruna. Ela se torna sua única amiga e paixão, influenciando a relação entre Mamma Roma e o filho. Bruna não é exatamente uma mãe no sentido biológico do termo, ela representa sua mãe simbólica.
Close na Mãe

Algumas coisas se aprendem desde criança!


Em Mamma Roma, as figuras maternas ainda representam importantes símbolos de inocência e autenticidade. No início do filme, durante a festa de casamento de Carmine, Mamma Roma insiste em perguntar a um garotinho se ele ama sua mãe, no começo ele dá um tapa no rosto dela (imagem acima), mas em seguida responde que sim. Carmine, rapidamente, fala para o garotinho: “Bata, moleque! É assim que se tratam as mulheres” (3). Antes de chegar a ele, Mamma Roma pergunta a todos o que são as crianças. Na seqüência seguinte, ela se encontra com Ettore no parque. Na passagem da criança pequena para Ettore, Mamma Roma recupera sua identidade de mãe, construindo a possibilidade de uma vida honesta em família – portanto, uma vida pura.
Mamma Roma também é uma Mãe Jovem (Madre Fanciulla), que na adolescência se prostitui para escapar da pobreza e de uma família opressora. Porém, a opressão ainda está lá, no esforço de seu ex-cafetão em mandá-la de volta para as ruas e destruir suas esperanças de uma vida honesta. De acordo com Pasolini, a consciência social dela fica evidente em suas aspirações materiais, embora não tenha ainda adquirido completamente a falsa consciência moral que caracterizaria a burguesia. Apesar de ela ter conseguido alguma liberdade em relação à Carmine e um emprego decente, não se inseriu completamente no mundo do centro da cidade. Essa inabilidade em mergulhar no presente e se livrar do passado a torna inocente aos olhos de Pasolini. De fato, Pasolini considerou que todos os grupos subalternos (jovens, velhos, mulher ou homem, ocidentais ou não) são genuínos.

Por dois motivos, em primeiro lugar esses grupos são expostos a diferentes formas de exclusão da sociedade. Em segundo lugar, seus modos de interação são anteriores aos comportamentos altamente conformistas de consumidores (que caracterizam as culturas ocidentais nas décadas posteriores a Segunda Grande Guerra). Não existe, para esses grupos, uma chance de escapar da opressão. Por essa razão, Mamma Roma sempre acaba subjugada pelo passado. Seja devido à perseguição de Carmine, ou os problemas de Ettore.

“Para além desses detalhes narrativos, Pasolini também expressa a inocência de Mamma Roma estilisticamente ao capturá-la em [closes] frontais, durante momentos chave do filme. Para Pasolini, este tipo de tomada tinha o efeito de suspender o sujeito para longe de uma experiência dolorosa ou ambiente deprimente, sugerindo que [Mamma Roma] de fato pertence há outro tempo e lugar, ou para indicar que a significação de seus pensamentos e ações num momento particular transcende a realidade do local. Esse tipo de filmagem em [close] é uma das técnicas características de Pasolini, que ele empregou muito durante toda sua carreira. Considere, por exemplo, as tomadas aproximadas de Stella em Accattone, Desajuste Social, ou a jovem Madonna em O Evangelho Segundo São Mateus [Il Vangelo Secondo Matteo, 1964], que está de pé diante de João quando ele entende que ela está grávida. Outro exemplo desse tipo de close simbólico acontece no casamento na seqüência de abertura em Mamma Roma, quando [ela] canta sobre sua liberdade em relação à Carmine. Outros exemplos incluem o momento em que ela vê seu filho pela primeira vez [no carrossel]; a vez que ela vai à igreja para ‘explorar’ oportunidades sociais para Ettore; a hora que ela pede ao padre que encontre um emprego para Ettore; o momento que ela chora enquanto olha Ettore trabalhando; e, finalmente, o momento em que ela descobre que Ettore morreu e olha pela janela, enlouquecida de desespero” (4)

Mães-Filhos e Elefantes
Ettore não está pronto para mudar, os ideais pequeno-burgueses da mãe o atingem como uma tonelada de tijolos


Após a festa de casamento de Carmine, Mamma Roma se aproxima de um parque onde encontra Ettore pela primeira vez. Ele está no carrossel, mas quando ela vai chamá-lo ele some – uma vida que gira e volta ao mesmo lugar, prefigurando sua vida e seu desaparecimento no final. Mas a mãe descobre onde o rapaz está e tenta alcança-lo, então Mamma Roma vê Ettore roubar de uma barraca do parque. Ainda que com a melhor das intenções, Mamma Roma começa a impor ao filho seus desejos. A subjetividade dos dois começa a se fundir, mas com a dominância dela, o que acaba gerando um profundo conflito psicológico e cultural nele, que a mãe nunca será capaz de resolver.
O impulso de diferenciação dele em relação à mãe onipotente se manifesta em sua simultânea atração/repulsão ao presente que ela apresenta e o passado, que faz o papel de útero metafórico. Ettore procura satisfazer sua mãe (vai para a escola, vai trabalhar, sai com a mulher que ela escolheu), mas ele nunca assimilará verdadeiramente os desejos dela. As imagens criadas por Pasolini mostram essa divisão emocional, como na cena do carrossel, ou quando Mamma Roma vai olhar Ettore no emprego de garçom que ela arrumou para ele (5).

Mamma Roma compra uma moto para ele, mas isso não é apenas um presente. O veículo é um símbolo de riqueza através do qual ela deseja que Ettore experimente as recompensas do trabalho duro e das metas materialistas como um incentivo para ganhar mais – é quando ela diz ao filho que um dia todos terão inveja dele, em função de seu progresso material. É exatamente neste ponto que a diferença cultural entre os dois vem à luz. Ainda no passeio de moto, Mamma Roma perguntou se ele não gostaria de ser um cavalheiro. Ettore respondeu que todos os cavalheiros são estúpidos, filhinhos de papai, e acreditam serem donos do mundo só porque têm algum dinheiro.

Ettore sente-se estranho tanto em relação ao centro de Roma quanto à periferia

Ela critica o pensamento de esquerda do filho, sem perceber que esses sinais de autonomia do filho ainda são adolescentes – como se nota pelo rápido fim da discussão em função do prazer do passeio de moto. Este é um dos momentos em que o filme faz notar o que liga e o que separa os dois: os objetivos materiais de Mamma Roma (seus olhos no futuro) e a estagnação de Ettore (seus olhos no passado). Numa primeira versão do roteiro, Ettore sonha que sua mãe está sendo atacada por um bando de elefantes e ele não consegue livra-la. Entretanto, na versão final, é o contrário que acontece, Mamma Roma e a nova sociedade que ela abraçou são os elefantes que espremem Ettore e sua diferença cultural (6).
Em vários momentos podemos ver Ettore em atos de resistência, como quando ele vende o disco antigo da mãe, com o qual tiveram alguns momentos de dança. Além disso, temos a decisão dele de sair da escola, escolher seus próprios amigos e continuar com Bruna. No final do filme, quando ele descobre que a mãe foi prostituta, destrói os planos dela completamente: declarando sua autonomia, ele rouba, vai preso, e acreditamos que ele morre. Mas ele morre chamando pela mãe e pedindo para voltar para Guidonia (o passado), às suas genuínas raízes culturais e de uma existência pobre que Mamma Roma originariamente representava. Ettore não consegue se diferenciar da mãe, o que teria permitido a ele apropriar-se das virtudes dela de forma construtiva. Entretanto, como ele não conseguiu se libertar, perpetuou-se a fantasia da onipotência maternal.
Roma é a Mãe

A verdadeira prostituta é Roma

O nome composto “Mamma Roma” nos remete a um ser ao mesmo tempo privado e público. Ela é a mãe de Ettore, mas também “Mãe” de Roma. Especialmente para “filhos” como Ettore, que cresceram na fronteira entre os mundos do presente e do passado. “Mamma Roma” é uma união de palavras que articula a mãe biológica com a noção maior de cidade/comunidade. O bem estar da sociedade está implicado na identidade de Mamma Roma, seus sonhos pequeno-burgueses colocam a sociedade em perigo: assim como Ettore não consegue criar ou recuperar sua autenticidade cultural através dela, a sociedade não pode alcançar sua própria autenticidade.

Cada vez que abriam a janela do apartamento e olhavam para Roma, o bem estar daquela relação ficava abalado


Aquilo que Pasolini considera como o mais genuíno substrato social (os pobres e marginalizados) foi cooptado, não conseguiu alcançar o progresso final de uma transformação ideológica. “Mamma” “Roma” carrega várias outras dicotomias: passado x presente, subproletariado x pequena burguesia, cultura marginal x cultura de massa. Mamma Roma representa, ao mesmo tempo, um passado inocente (Madre Fanciulla, falta de consciência política) e um presente corrupto que se manifesta em seus interesses pequeno-burgueses (casa, igreja, amigos respeitáveis, bens materiais). Mas ela também incorpora o conflito de classes, por seu desejo de livrar-se do passado e subir socialmente. Mamma Roma também está dividida entre a cultura burguesa do centro da cidade e a cultura marginal de suas raízes subproletárias (7).



No primeiro apartamento em Roma, a vista dava para o cemitério


Em duas caminhadas, onde Mamma Roma parece se dirigir às pessoas que surgem e desaparecem, mas no fundo é um monólogo, podemos perceber sua luta contra as forças que desejam derrubá-la. Na primeira, ela ainda está otimista sobre seu futuro e de seu filho. O contratempo que Carmine criou (se prostituir por duas semanas) não a abalou. Na segunda caminhada, Mamma Roma está mais resignada e seu andar mais lento e irregular. Se no primeiro caso ela comentava sobre suas origens e os motivos que a levaram à prostituição, no segundo está centrada nos obstáculos que não estavam nos planos (a interferência de Carmine e os problemas de Ettore na escola e no trabalho).

Na segunda caminhada, ela anda, anda, mas não chega a lugar algum. Ela fala, fala, fala, mas não conclui nada. Nenhuma das duas caminhadas a conduz para fora do mundo subterrâneo do subproletariado e na direção do futuro pequeno-burguês que ela almeja. As três prostitutas do filme representam o subproletariado em vários graus de assimilação cultural em relação ao discurso dominante: como as comunidades de classe baixa em torno de 1960 reagiam em relação ao simbolismo de Roma, aos ideais burgueses que gradualmente penetram os espaços urbanos (modernos projetos de conjuntos habitacionais) e as mentes (o desejo por bens materiais e maior espaço social).

“Mamma Roma claramente abraçou a ética moral e material da cultura dominante; Bruna perde-se num estado de adolescência ambíguo, mantendo-se enraizada num passado inconsciente conduzido pelo instinto; e Biancofiore está eqüidistante, dando e recebendo de cada domínio de maneira a existir confortavelmente. De muitas formas, a abordagem de Biancofiore é o mais prático, uma vez que ela não está nem totalmente limitada por um passado opressivo nem totalmente dirigida para um futuro intangível. Ela vive aqui e agora e, apesar de alguns comentários cínicos, aparenta estar relativamente satisfeita” (8)
Bruna e Biancofiore
“Estou aqui para isso! Para fazer favores às pessoas” (9) Biancofiore

Mamma Roma está decidida a afastar Bruna de Ettore, para isso pede ajuda a Biancofiore. Ao contrário de Bruna (imagem ao lado), que é apenas uma “garota fácil”, Biancofiore é uma prostituta (imagem acima), embora as duas compartilhem uma personalidade despreocupada em relação à vida que levam. Biancofiore deverá transar com Ettore e tentar fazê-lo esquecer Bruna. Durante um breve tempo ela consegue, mas logo ele volta seu interesse para Bruna, ainda que em parte como resposta ao fato de que sua mãe desaprova a relação (10).

Biancofiore garante que Ettore esqueceu Bruna, ele até disse que a levaria ao zoológico para ver elefantes – sabemos o que elefantes poderiam significar neste filme. Mamma Roma também utiliza os serviços de Biancofiore para, com a ajuda do cafetão dela, armarem uma situação para chantagear um dono de restaurante que Mamma Roma descobriu na igreja. Já que ela não conseguiu que o padre lhe ajudasse a pedir um emprego de garçom para Ettore, ela armou essa situação e conseguiu o que a sociedade (na pessoa de um representante de Deus) não lhe deu.

Bruna pode ser “fácil”, mas Mamma Roma mostrou claramente como o machismo era uma moeda corrente naquele lugar. É só lembrar da cena onde o bando de desocupados, vizinhos de Ettore e Bruna, questionam o rapaz. Eles sabem para onde Ettore a está levando, no muro ao fundo existe uma porta, lá Bruna costuma fazer sexo com seus escolhidos. O bando critica a atitude de Ettore, que na verdade está apaixonado, como se ele quisesse apenas monopolizar o corpo dela. O bando não vai permitir que sua escrava sexual seja tirada deles. Além disso, para voltar à mãe de Ettore, Carmine não parou de insistir para que Mamma Roma voltasse a ser sua escrava. No primeiro caso, desejam um corpo. No segundo caso, o dinheiro que um corpo de mulher pode conseguir.

Ao contrário de Mamma Roma, Bruna não está dividida entre dois mundos, ela pertence à periferia de Roma. Embora ela possa ser enquadrada na categoria de Mãe Jovem (Madre Fanciulla), já sabemos que ela não é uma mãe no sentido biológico. Ela apenas compartilha com Mamma Roma aquela pureza antiga. A primeira vez que Ettore a encontra, ela está cuidando de um pequeno menino. Tempos depois, Ettore a presenteia com um cordão com a imagem da Nossa Senhora e o Menino. Ao contrário de Mamma Roma, Bruna não fica empurrando Ettore em sua direção. Ela representa uma mãe subproletária antes de acordar para a consciência de classe.


Diferentemente de Mamma Roma, ela vive o dia-a-dia nos terrenos abandonados que circundam o conjunto habitacional de moradias populares onde todos moram, como se estivesse imune à vida no centro da cidade. Mamma Roma e Bruna representam dois mundos opostos. Tanto quanto os sonhos de Mamma Roma, Bruna pode acabar dificultando uma individuação saudável de Ettore. Foi Bruna quem contou a ele que sua mãe era prostituta, uma atitude típica do autoritarismo de sua própria mãe em relação à Bruna.

Ettore acaba por rejeitar as duas mães. Bruna ainda vem perguntar se está com raiva pelo que ela revelou - Ettore a derruba. Agora ele recusa o dinheiro de sua mãe. Sua condição física se deteriora, com febre, ele tenta roubar um rádio num hospital, é preso e levado para uma enfermaria. Entrar em crise e quer sair dali quando ouve alguém cantarolar a mesma música do disco antigo de sua mãe que ele vendeu – e com o qual haviam compartilhado alguns bons momentos. Amarrado em uma mesa, imobilizado, Ettore chama pela mãe e pede para voltar para Guidonia (11). Aqui Pasolini não é objetivo, Ettore não fecha os olhos. Então ele pode estar morto ou catatônico (12) (A cena foi inspirada em Cristo Morto, de Andréa Mantegna, 1430-1506). A diferenciação de Ettore (quando ele se desliga delas para construir seu próprio eu) chegou tarde. Ele não foi capaz de alcançar a conexão vital com as origens puras da vida através das duas mulheres de sua curta existência.

Encarar a paisagem na janela, depois do fim de Ettore, é a hora da verdade entre aquela mulher e a cidade que ela acreditava que ia salvar vidas



Notas: 1. “Fiore de merda,/ io me ‘so Iliberata de ‘na corda,/ adesso tocca a ‘n’ altra a fà la serva!”. SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (eds) Pier Paolo Pasolini per il Cinema. Milano: Mondadori, 2 vols. 2001. Vol. 1, p. 158.
2. RYAN-SCHEUTZ, Colleen. Sex, the Self, and the Sacred. Women in the Cinema of Pier Paolo Pasolini. Canada: University of Toronto Press, 2007. P. 46.
3. “Menaje, ‘a ragazzì! Le donne cosi se pijano”. SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (eds). Op. Cit., vol. 1, p. 159.
4. RYAN-SCHEUTZ, Colleen. Op. Cit., pp. 49-50.
5. Idem, pp. 51 e 238n9.
6. Ibidem, p. 53.
7. Ibidem, p. 55.
8. Ibidem, pp. 91-2
9. SITI, Franco, ZABAGLI, Franco. Op. Cit., vol. 1, p. 213.
10. RYAN-SCHEUTZ, Colleen. Op. Cit., p. 89.
11. Ibidem, p. 57.
12. SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (eds). Op. Cit., vol. 1, p. 261.


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