29.7.09

01/08 - A Hora do Lobo (Ingmar Bergman)

Neste Sábado 01/08 às 19:30hrs
no SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



O pintor Johan e sua esposa grávida, Alma, retiram-se para uma ilha isolada. Johan é consumido por demônios do passado e por constantes alucinações. Alma tenta ajudá-lo a manter a sanidade e controlar sua obra. Mas durante a escuridão entre a noite e o amanhecer, A Hora do Lobo, os medos de Johan podem se concretizar... Tudo funciona à perfeição: a direção magistral de Bergman, a fotografia expressionista de Sven Nykvist e as atuações viscerais de Max von Sydow e Liv Ullmann. Um filme difícil de se esquecer.


Título: A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman
Título Original: Vargtimmen
Direção: Ingmar Bergman
Elenco: Max von Sydow, Liv Ullmann, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Naima Wifstrand, Ulf Johansson, Gudrun Brost, Bertil Anderberg, Ingrid Thulin
Ano de Produção: 1968
Duração: 90 minutos
Cor: Preto e Branco
Tipo de Diálogo:
Formato da Tela: Fullscreen 1.33:1
Gênero: Drama
Faixa Etária: 18 anos
País de Produção: Suécia
Legenda: Português
Idioma: Sueco


“Os antigos a chamavam de ‘a hora do lobo’. É a hora em que a maioria das pessoas morre… e a maioria nasce. Nesta hora, os pesadelos nos invadem”.

Exatamente na metade do filme, quando o insone pintor Johan Borg (Max Von Sydow) fala sobre a hora lupina à sua esposa Alma (Liv Ullmann), sob a luz fremente de um único palito de fósforo, Bergman finalmente nos engole para o outro lado do redemoinho sobre o qual apenas circundávamos até então. E o filme todo é como um singrar entorpecido em direção aos núcleos subterrâneos da mente, diluída, aqui, na solvente atmosfera da madrugada.

Começo dizendo que A Hora do Lobo é um dos meus filmes favoritos de sempre, e o melhor do sueco doido em questão. Não apenas pelo salto incontido sobre o surrealismo, mas por manipular como nenhum outro os demônios e pesadelos de um personagem, transformando-o num mergulho inédito (ao menos nunca visto tão intensamente) adentro dos traumas, dos conflitos, dos medos e, essencialmente, da solidão.

Porque mais que pela paz ou pelo bem do seu trabalho, o isolamento naquela ilha traz Johan para um isolamento em si próprio. Daí que é irrelevante a existência ou dos “canibais”, ou da sua mulher ou até dele mesmo quando tudo se afunila (ou se “expande”, que pode ser o termo correto) num verdadeiro universo mental, que embora chamado de “irreal”, talvez seja o nível mais puro e nuclear de todos.

E uma das coisas mais notáveis em A Hora do Lobo é a indefinição de quando, precisamente, começa o alucínio, o vazamento da matéria-prima flutuante dos sonhos para a densa materialização na tela. Isso se de fato começa, ou ainda se está ali desde o início… assim como Bergman não deixa nenhum detalhe que decida derradeiramente que Alma viva apenas na imaginação de Johan, ou que Johan só exista na inconsciência de Alma (cujo nome, aliás – também utilizado na obra-prima Persona – já pressupõe a subdivisão de uma única pessoa em duas, ou se considerarmos os moradores do castelo, várias).

Basicamente tudo se esclareceria se soubéssemos quem, afinal, escreveu aquele diário. Mas acontece que por natureza A Hora do Lobo é um filme de sombras, e Bergman está sempre interessado em perguntas, não em respostas, de modo que a resume grosseiramente a mera pretensão de ‘decifrar’ a obra (e na verdade qualquer outro filme, porque cinema é feito pra se sentir, não para se decompor como a uma equação). Respostas, neste caso, são a mais sólida e impermeável imposição de limites; cercanias num terreno onde a imaginação deve ser livre para se alastrar a galopes.

De todo modo (e se já levemente percorrida até aqui por varizes de trincos), a identidade deste protagonista secreto se estilhaça no momento em que Alma põe os olhos no caderno de Johan (com a ajuda da velha do chapéu, originalmente um dos demônios do seu marido), e é precisamente quando a manipulação do tempo (este deus absoluto) é disparada numa potência até hoje desconhecida e talvez irrepetível na história do cinema (apesar de David Lynch ter feito um trabalho inexplicável em Império dos Sonhos, mas isso é outra coisa). Porque A Hora do Lobo é todo sobre o tempo projetado na lâmina da mente e refratado em uma nuvem de pedaços. Taxá-lo simplesmente de “não-linear”, aliás, é quase um insulto, como pedir para que o próprio Bergman desça e lhe assombre à noite, e quem conhece sabe que o diretor sueco é um fantasma eterno e onipresente sobre quem o assiste (alguns momentos do próprio A Hora do Lobo são especialmente traumáticos).

Mesmo que não esteja saliente como mais tarde, uma delicada névoa de pesadelo já pesa sobre o filme desde o início, mostrando-se mais forte durante a cena do jantar. De cara Bergman entorpece o espectador numa ciranda ao redor da mesa, deformando e diluindo os rostos como se uma pintura ainda fresca de Johan (o que, por um lado, não deixa de ser literalmente verdade) fosse girada sobre o próprio eixo. A partir daí, a imagem quase sempre se solvendo é uma prevenção de que os sentidos e os valores baseados num mundo concreto começam a se desmanchar.

É assim pela cadência célere dos diálogos, dos movimentos de câmera abruptos e dos closes opressivos, resultando num efeito de quase vertigem como que a noite vista detrás dos olhos de Johan (embora a câmera não seja propriamente subjetiva). O que se segue é uma madrugada envolta num manto surrealista todo baseado no comportamento bizarro dos moradores do castelo. O teatro de marionetes inclusive brinca com as noções do espectador de até quando as projeções da mente invadem o terreno do concreto, e neste caso é o próprio Bergman que compõe esta cena assumidamente ficcional, na luz que se apaga sozinha como por ordem do ‘diretor’, na marionete viva, na música de uma banda ou aparelho inexistente (de novo, o próprio Lynch faria algo semelhante – mas bem mais evidente – no clube do silêncio de Cidade dos Sonhos). É ele quem convida a nos soltarmos de quaisquer amarras ao sobrepor o nível ‘cinema’ ao nível do sonho e da imaginação, forjando-os indissociáveis a partir daqui. Ou se crê no cinema como extensão do imaginário, ou se abandona A Hora do Lobo.

Vargtimmen

E o filme é intensamente perpetrado de um feitiço, como que cercado de bruxos, círios e pentagramas. Porque, sob a luz encantada da hora lupina, as coisas mudam de cor, de forma, a densidade das massas toma outros valores, as ligações com o mundo real são corrompidas. Quando “Vargtimmen” se acende na tela, um último resto de sanidade se apaga.

Perdidos na escuridão dessa hora, Alma e Johan conversam e conflitam traumas como se memórias perigosas fossem todas trazidas de volta pondo a mente à beira de uma eclosão. A cena catalítica de A Hora do Lobo envolve exatamente o pior dos fantasmas de Johan: a infância, também angular em toda produção artística do próprio Ingmar Bergman (sabe-se que Bergman sofreu demais nas mãos do pai, um pastor luterano fanático). A confissão do episódio do armário é uma confissão do diretor, e a morte do garoto, uma tentativa de exorcismo (o que já é praticamente um resumo do que guiaria sua filmografia). A cena em questão é das coisas mais perturbadoras e insuportavelmente tensas já filmadas. E é lindo. Pescando num golfo, Johan se vê extremamente incomodado pela presença de uma criança. O garoto se aproxima, observa o quadro e o cavalete com certa curiosidade, conta os peixes fisgados, mexe nas botas, troca olhares indecifráveis com o pintor. Quando ele simplesmente pára nas costas de Johan, o crescente de um zumbido laminal estoura na trilha. O contraste entre a imobilidade dos dois e a aceleração sonora já quase navalhando os ouvidos apenas torna tudo ainda mais incômodo, angustiante, nocivo. E a seqüência da luta é especialmente tóxica para os sentidos. Há toda uma harmonia perfeitamente sincronizada entre a ação e a trilha, que golpeia os ouvidos conforme Bergman agride nossas retinas. Mas o teor realmente assombroso de toda a cena é a visão inexplicável do garoto afundando e emergindo na água igualmente morta e com um aspecto grotesco de óleo diesel (a fotografia do lendário Sven Nykvist joga a maior parte dos tons de cinza no lixo). E o sueco decreta: os porões da memória são sempre os piores cadafalsos. A partir de então Johan submerge-se totalmente, embebe-se no visgo dos próprios traumatismos e afoga-se na saliva dos seus demônios, reencontrados, aliás, um a um pelo seu percurso doentio através do castelo. E é impressionante a precisão de como a lógica torpe de um pesadelo tenha sido representada. As peculiaridades dos seres, a régia toda deformada dos diálogos e o sopro mediúnico do lugar são pilares de uma construção atmosférica sem nenhum paralelo, transformando o terço final de A Hora do Lobo numa das experiências cinematográficas mais intensas e absurdas às quais alguém pode ser submetido.

E a imagem, a partir daqui, toma uma proporção imperativa, mostrando-se inesquecível durante várias situações criadas pelo diretor. A sucessão de ações no limiar do tétrico e do divertido, do repulsivo e do sedutor, do melancólico ao colérico (e Bergman realmente patrola as fronteiras das sensações; aproxima, mistura e dissolve os extremos numa massa homogênea) termina por compor uma tatuagem na pele da memória, e o sentimento evocado ao se olhar para este painel é qualquer coisa à qual ninguém pôde, ainda, nomear.

O que se segue é uma queda livre e irreversível no abismo interior. E no fio do vértice, aparentemente morta sobre uma mesa, nua e linda, iluminada apenas por uma lâmpada incandescente, está uma mulher. O olho do vórtex, o ponto de união do verso e antiverso desta mente que se encontra em pleno desmoronamento. Verônica Vogler é um portal, uma passagem só de ida para outro mundo. E partindo da esquizofrenia do próprio filme, não se sabe ao certo se é a opção definitiva de Johan pelo pesadelo ou finalmente sua fuga dele.

E é lindo, apesar de todo o horror, da violência, de toda tristeza implícita na contemplação quase sádica deste mórbido espetáculo do colapso de uma constelação mental; é lindo pensar que um filme que comece e termine num tom documental tenha sido inteiro concebido no interior de um sonho.


Luis Henrique Boaventura

http://multiplot.wordpress.com/2008/05/19/a-hora-do-lobo-ingmar-bergman-1968/



15.7.09

18/07 - A Dupla Vida de Véronique (Krzysztof Kieslowski)

Neste Sábado dia 18/07 às 19:30hrs
no SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA


Véronique vive em Paris, Weronika em Varsóvia. A atriz Irène Jacob (A Fraternidade é Vermelha) interpreta essas duas mulheres que nasceram no mesmo dia e que, de alguma maneira, à distância, sentem a presença uma da outra. Essa estranha conexão interfere em suas vidas e relacionamentos. Ao som da trilha sonora de Zbigniew Preisner, uma das mais belas da história do cinema, Kieslowski constrói um drama de imagens inesquecíveis.
Atores Irène Jacob, Wladyslaw Kowalski, Sandrine Dumas, Guillaume de Tonquedec, Aleksander Bardini, Claude Duneton, Philippe Volter, Halina Gryglaszewska, Jerzy Gudejko, Kalina Jedrusik,
Direção Krzysztof Kieslowski,
Idioma Francês,
Legendas Português,
Ano de produção 1991
País de produção França, Polônia,
Duração 93 min.

"A Dupla Vida de Véronique" é um excelente filme. Realizado pelo consagrado cineasta polonês, Krzysztof Kieslowski, que também co-assina o roteiro, o filme é uma obra intimista sobre o mistério do destino, deixando ao espectador a liberdade de interpretá-lo segundo sua própria sensibilidade.

Além do magnífico trabalho de Kieslowski, Irène Jacob está excepcionalmente cativante em seu duplo papel de Weronika, uma aspirante à soprano polonesa, e Véronique, uma professora francesa de música.

Adicionalmente, "A Dupla Vida de Véronique" conta ainda com a belíssima música de Zbigniew Preisner.

"A Dupla Vida de Verónique" é uma das obras primas do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. É uma belíssima fábula, que se passa em um ritmo quase onírico. E é também a obra com a qual Kieslowski abriu seus horizontes para além das fronteiras polonesas. O filme abre com a história de Veronika, uma jovem polonesa com um talento absurdo para a música erudita. Sua voz é incomparável. Após conseguir entrar em uma escola de música, Veronika se apresenta pela primeira vez e morre, com um ataque cardíaco. Veronique é uma jovem francesa com um grande talento musical. Sua vida seguia bem até que ela sente como se estivesse só. Perde o interesse na música e acaba se relacionando um manipulador de fantoches, Alexandre Fabbri, que a conduz para uma espécie de conto da vida real. A história é bastante simples: duas jovens, de mesma idade, que não se conhecem, que moram em países diferentes e que têm o mesmo gosto musical, mas que possuem uma ligação metafísica inexplicável. A simplicidade da trama é trabalhada pela direção magnífica de Kieslowski, que conta essa fábula através de imagens, sons, cores e gestos fabulosos. Nesse aspecto, Kieslowki utiliza de incríveis movimentos de câmera, além da fotografia de Slawomir Idziak, que usa de diversos tons e objetos para trabalhar a imagem. Além disso, a trilha sonora de Zbigniew Preisner é uma das melhores já realizadas, com todo o melhor que a música erudita pode oferecer. Por fim, o roteiro de Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz evitam que a história perca vigor no meio do caminho. As atuações são magníficas. Irene Jacob interpreta Veronika/Veronique magistralmente. Seus gestos, sua voz e seu olhar são incríveis. É uma atuação soberba. Com essa performance, Jacob recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Kieslowski recebeu ainda em Cannes o prêmio FIPRESCI e o prêmio do júri ecumênico. A destacar também a atuação de Philippe Volter, que faz o personagem Alexandre Fabbri, que dá novo gás à história. "A Dupla Vida de Verónique" é um filme lindíssimo. É um dos melhores trabalhos do diretor, um sopro de vida, um sonho que transcende os limites de realidade e imaginação. Obrigatório.


Por Antonio Felipe Purcino


3.7.09

04/07 - Tierra (1996) Julio Medem

Neste Sábado dia 04 de Julho às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

Em algum lugar perdido do universo, num vilarejo de terra vermelha, Angel chega com a missão de livrar as plantações de uva de uma praga que as faz produzir um vinho com um gosto a terra. Em contacto com os habitantes, Angel descobre também uma forma de resolver os seus problemas pessoais. Não se apegue a sinopse simples, Tierra esconde segredos maravilhosos de um dos melhores diretores espanhóis e quem sabe mundiais de nossa época. Do mesmo diretor de "Os Amantes do Círculo Polar".
Direção:
Julio Medem
Ano:
1996
País:
Espanha
Gênero:
Drama, Romance
Duração:
125 min. / cor
Título Original:
Tierra
Elenco:
Silke, Nancho Novo, Carmelo Gómez, Emma Suárez, Karra Elejalde, Txema Blasco, Ane Sánchez, Juan José Suárez, Ricardo Amador, César Vea

Julio Medem

O cinema espanhol sempre me apaixonou, não contando com Almodóvar, incontestavelmente brilhante e o mais mediático de todos, encontramos um leque variadíssimo de grandes cineastas espanhóis como Bigas Luna, Fernando Trueba, Gonzalo Suárez, Manuel Gómez Pereira, entre outros. E se os referidos são geniais, entre a genialidade existe também Julio Medem, cineasta muito particular, cujos filmes relembram um pouco o trabalho de Buñuel. Desta forma resolvi dedicar algumas horas a visitar o universo de Julio Medem, e vi quatro dos seus filmes, "La ardilla roja", "Tierra", "Los amantes del Círculo Polar" e "Lucía y el sexo". E nos quatro filmes encontramos definitivamente um universo peculiar, Medem é mestre em abordar a mente humana, os sonhos, as ilusões e os pensamentos mais recônditos, assim como as coincidências, os desencontros e os acasos do destino, sendo, para além do realizador, o próprio autor das histórias. Também na escolha dos actores Medem tem um universo singular, pois encontramos muitas vezes os mesmos actores, Nancho Novo surge nos três primeiros filmes que referi, sendo o actor principal em "La ardilla roja", Emma Suárez, Carmelo Gómez e Karra Elejalde surgem em "La ardilla roja" e em "Tierra", Txema Blasco em "La ardilla roja" e em "Tierra" e Najwa Nimri surge em "Los amantes del Círculo Polar" (com uma excelente interpretação, no papel feminino principal) e em "Lucía y el sexo". Já para não falar do filme "Vacas", que ainda não tive oportunidade de ver, mas onde entram também no elenco Carmelo Gómez, Emma Suárez, Txema Blasco e Karra Elejalde. A própria música, que tem um importante papel nos filmes de Medem, fica sempre a cargo de Alberto Iglesias, compositor bastante reconhecido, tendo trabalhado em alguns filmes de Almodóvar e tendo sido nomeado ao Oscar de melhor Banda Sonora Original no filme "O fiel jardineiro". A propósito da colaboração de Alberto Iglesias, o crítico de música de cinema Conrado Xalabarder, considera-o um complemento directo de Medem, "tornando mais acessíveis os seus filmes e convertendo-se no melhor porta-voz da introspecção das personagens, expressando o que escondem os seus olhares e os seus silêncios". Em suma, deparamo-nos com um cineasta singular e genial, que não abdica deste universo especial, e extremamente invulgar, que envolve os seus filmes, ao ponto de recusar a oferta de Steven Spielberg para realizar "A máscara de Zorro".

http://luaobscura.blogspot.com/2007/08/julio-medem.html

17.6.09

20/06 - O Fascista (Luciano Salce)

Neste Sábado dia 20/06 às 19:30hr
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



O FASCISTA
(Il Federale)

Com:
Ugo Tognazzi .... Primo Arcovazzi
Georges Wilson .... Prof. Erminio Bonafé
Elsa Vazzoler .... Matilde Bardacci
Mireille Granelli .... Rita Bardacci
Stefania Sandrelli .... Lisa
Luciano Salce .... Oficial Alemão

Gênero: Comédia
Diretor: Luciano Salce
Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento: 1961
País de Origem: Itália

Em 1944, um fascista fanático que espera se tornar um Federale (posição de alta graduação no Partido fascista) deve levar do Abruzzo a Roma um opositor do regime. Ao longo do percurso (feito em moto com sidecar) os dois têm a oportunidade de se conhecerem melhor, tendo como cenário uma Itália fascista praticamente em ruínas. Apesar da clara evidência do colapso do regime, a fé do aspirante a Federale não é abalada, face a miragem da promoção. O primeiro filme de Luciano Salce como diretor na Itália - já havia dirigido Uma Pulga na Balança e Floradas na Serra pela Vera Cruz, em São Paulo - é uma divertidíssima comédia sobre até que ponto a fé e a ambição política (ou religiosa, dá no mesmo) pode levar os seres humanos a se tornarem completamente alienados e estúpidos. Nesse filme o diretor explora muito bem as contradições entre os sentimentos humanos - a nascente amizade entre o captor e o capturado, o oportunismo do poeta fascista - e atitudes fanáticas, que fazem com que uma pessoa tente atingir seus objetivos sob quaisquer circunstâncias. Após esse filme Salce teve uma carreira bastante apagada como diretor na Itália até 1975, quando filmou o primeiro dos Fantozzi, que se tornaram extremamente populares no país peninsular. Cabe assinalar também que esse é o primeiro filme cuja trilha sonora é do famosíssimo Ennio Morricone.


4.6.09

06/06 - Rushmore (Wes Anderson)

NESTE SÁBADO DIA 06 de Junho às 19:30hr
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA


Sinopse
Max Fischer (Jason Schwartzman), um rapaz de quinze anos, conseguiu uma bolsa de estudos em Rushmore, uma escola preparatória para jovens de famílias ricas. Apesar de se dedicar a várias atividades extra-curricualres, Max corre o risco de ser expulso, em virtude das suas notas serem baixas. Ele se torna amigo de Herman Blume (Bill Murray), um magnata que atravessa uma depressão. Max se apaixona por Rosemary Cross (Olivia Williams), uma professora que tinha ficado viúva um ano atrás, mas há dois problemas: Rosemary acha que Max é muito novo para ela e, além disto, Herman se apaixona por Rosemary e os dois se envolvem, criando entre Fischer e Blume uma certa rivalidade.

Três é Demais, de Wes Anderson Rushmore, EUA, 1999

Vamos começar desconsiderando o título brasileiro do filme de Anderson. Rushmore é o nome daquele que talvez seja o principal personagem do filme: a escola privada secundária onde estuda o protagonista e que ele tanto ama. Porque em última instância o filme é um exemplar do gênero do "cinema de escola". Mas isso é tudo de convencional ou qualificável que se pode encontrar no trabalho de Anderson. A partir da noção de um garoto de 15 anos vivendo intensamente seus anos de escola, o filme joga para o alto todas as convenções de gênero, e trabalha com uma mistura fundamental do que há de "realista" neste ambiente com o que ele projeta de imaginário e simbólico, pode-se dizer até mesmo que mítico, trabalhando na perspectiva da mitologia já criada pelo cinema americano como pela sociedade americana como um todo. Rushmore trabalha com esta "memória coletiva" com relação ao ambiente escolar, e constantemente a completa e subverte.

A começar pelo seu protagonista, Max Fischer. Ele é um garoto absolutamente incomum, mas ao mesmo tempo o mais comum deles. Não se pode encaixá-lo nas categorias que geralmente os filmes de escola criam, entre os nerds e os cool. Ele certamente nada tem de cool, mas ao mesmo tempo projeta uma profunda crença em tudo o que faz e acredita, disposto a abraçar o mundo com seu entusiasmo. É um garoto essencialmente bom, mas também capaz das maiores maldades quando contrariado. Ele mente, é péssimo aluno nas notas, mas ainda assim nunca tem nenhuma destas características colocadas em julgamento. Trata-se de fato de um personagem único, ou seja, ele dialoga com toda uma tradição de personagens, sem cair numa fórmula. Só Max Fischer pode ser Max Fischer.

Este é um dos mais essenciais pontos do cinema de Anderson que precisa ser entendido: todos os seus personagens dialogam com uma herança de tipos, mas nunca se encaixam em nenhum deles. O melhor amigo de Max é um garoto bem mais novo que ele, mas com a postura e os diálogos de um verdadeiro adulto, sempre em desacordo com sua imagem. Ao mesmo tempo, é capaz também de se voltar contra Max impiedosamente quando se sente traído. O objeto de desejo de Max também não é uma convencional colega a quem ele aspira, mas uma professora claramente fora do seu alcance, platônica, que só torna sua história mais terna e dura ao mesmo tempo.

Mas, talvez o principal personagem dentro desta perspectiva da estranheza ao estereótipo seja o magnata interpretado por Bill Murray, numa performance de impressionante contenção e sutileza. Trata-se de um milionário desencantado com a vida, e fascinado pela força vital de Max, que se torna um grande amigo dele. O que surpreende nesta relação entre um homem de mais de 50 anos e outro de 15 é que ela nunca de se dá na esperada condição de pai-filho. Pelo contrário, se há uma figura que surge como modelo entre os dois, é a de Max. A estranheza constante nesta relação se dá justamente pelo caráter verdadeiramente de iguais que se estabelece entre eles.

Porém não são só os personagens de Wes Anderson que trabalham nesta linha tênue entre o surreal e o realista. Todo o filme possui esta mesma sensação, com o trabalho cuidadoso e detalhista de direção de arte, figurinos, fotografia, e em especial a utilização da trilha sonora. Não se tem no filme a localização de um local ou uma data, porque é como se o diretor quisesse que nós víssemos uma essência atemporal do que seja ser adolescente, ter aspirações, ir à escola. O filme não é nunca anacrônico nem atual, mas transita constantemente entre os dois, com elementos quase sempre conflitantes e estranhamente funcionais.

O cinema de Anderson possui uma qualidade rara que é a capacidade de se mostrar extremamente cerebral no sentido da construção, onde se percebe com olhos atentos o cuidado com cada detalhe, que vai da movimentação de câmera ao mais sutil gesto dos atores, e os cuidados com o que se vê e ouve até mesmo no "background". Ao mesmo tempo, este detalhismo não se torna jamais frio, por causa do carinho e do arcabouço mítico com o qual o diretor trabalha, permitindo uma identificação constante do espectador com aquilo que assiste, por mais absurdo que possa parecer.

É como se os personagens trabalhassem fora da norma comum de comportamento social, mas aquilo que eles externam seja compreendido perfeitamente por se relacionar com o que todos sentimos. Rushmore é filmado como se visse o interior das pessoas, ultrapassando o limite do "real". Por isso consegue ser tão emocionante ao mesmo tempo em que é calculado e estranho. Trata-se de uma característica que assemelha em muitos pontos o trabalho do diretor com o dos irmãos Coen, que sempre trabalham com o conceito da "Americana" (a mitologia formadora de um imaginário comum de ícones norte-americanos) guiando seus filmes, que patinam no limite do mágico e do real, dos Estados Unidos entendidos em si mesmos como metáfora constante e um país que possui um tal arsenal imagético sobre si próprio que suas significações são necessariamente baseadas nele.

A sensação constante em Rushmore é que cada palavra e cada gesto dos personagens possui uma importância capital em suas vidas. E isso é especialmente adequado uma vez que o filme seja praticamente feio dentro da visão de seu protagonista, e aos 15 anos todos os atos e gestos têm esta força, tudo parece que vai durar para sempre e cada palavra de carinho ou rejeição possui proporções descomunais. Num momento o personagem de Bill Murray fala para Max: "Eu gastei 8 milhões de dólares para chamar a atenção dela!", ao que ele responde: "E isso é tudo que você está disposto a gastar?" Por conseguir capturar esta atmosfera onde amor, amizade, lealdade e rejeição são muito maiores e mais vitais do que em qualquer outro momento na vida, Rushmore é um dos maiores filmes americanos sobre esta idade, sobre esta condição chamada adolescência.

19.5.09

23/05 - A Dança dos Vampiros (Roman Polanski)

NESTE Sábado dia 23 de Maio às 19:30h
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

A DANÇA DOS VAMPIROS (1967)

The fearless vampire killers


Direção: Roman Polanski

Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach

Produção: Gene Gutowski

Música Original: Christopher Komeda

Fotografia: Douglas Slocombe

Edição: Alastair McIntyre

Design de Produção: Wilfred Shingleton

Direção de Arte: Fred Carter

Figurino: Sophie Devine

País: USA/ING

Gênero: Comédia

Elenco

Ator / Atriz Personagem
Jack MacGowran Prof. Abronsius
Roman Polanski Alfred, assistente do Prof. Abronsius
Alfie Bass Shagal
Jessie Robins Rebecca Shagal
Sharon Tate Sarah Shagal
Ferdy Mayne Conde Von Krolock
Iain Quarrier Herbert Von Krolock
Terry Downes Koukol
Fiona Lewis Magda, a empregada
Ronald Lacey Idiota
Sydney Bromley Motorista
Andreas Malandrinos Cortador de árvores
Otto Diamant Cortador de árvores
Matthew Walters Cortador de árvores

Sinopse

O professor universitário Abronsius, especialista em vampiros, e seu ajudante atrapalhado Alfred, partem para a Transilvânia, no coração da Europa Central, em busca de vampiros.

No albergue em que eles ficam hospedados, por superstição, não se fala em vampiros. O dono da hospedaria está preocupado em correr atrás da empregada e cuidar de sua filha Sarah, que tem um hábito obsessivo por banho. Logo no primeiro instante, Alfred apaixona-se por Sarah.

A moça é levada pelo conde Von Krolock, um temível e poderoso vampiro, até o seu sinistro castelo localizado nas montanhas de neve. O professor e seu assistente seguem em busca do tal castelo onde, além de Von Krolock, moram seu filho e um fiel e bizarro corcunda.

Ao chegarem lá, são muito bem recebidos pelo Conde que, entretanto, aguarda apenas o momento certo para atacá-los. Começa, então, a luta de Abronsius e de seu assistente para tentar escapar do castelo levando com eles a bela Sarah, agora uma nova vampira.

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Críticas

"A Dança dos Vampiros" é, antes de tudo, uma paródia dos filmes sobre vampiros produzidos pela Hammer Film Production Ltd., tais como, "The brides of Dracula" de 1960 e "Dracula: Prince of Darkness" de 1966. Assim, o filme apresenta uma mistura bem dosada de comédia com trama policial.

Polanski sabe habilmente utilisar certos pontos fortes dos filmes da Hammer para os transcender. Os cenários realizados por Wilfred Shingleton são simplesmente magníficos. A fotografia de Douglas Slocombe, a estrutura da narrativa, a excelente música de Christopher Komeda que se encaixa perfeitamente no clima do filme e os primorosos figurinos de Sophie Devine fazem de "A Dança dos Vampiros" um clássico. O elenco é também um ponto forte, com destaque para Jack MacGowran.

O filme foi rodado entre Londres e a Itália. Embora se trate de uma comédia, Polanski consegue magistralmente inserir alguns momentos de requintado suspense.

Mistura elegante de comédia de humor negro e terror escrachado, filme é uma delícia e tem visual fantástico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma temporada de férias de um cineasta que se preparava para vôos mais altos, em plena neve dos Alpes. Foi dessa maneira que o espectador europeu assistiu ao excêntrico e belíssimo “A Dança dos Vampiros” (The Fearless Vampire Killer, Inglaterra, 1967), um filme que parecia surgir na filmografia do cineasta polonês Roman Polanski como uma mancha – de sangue! – em uma carreira imaculada e brilhante. O tempo faria justiça, contudo, à desconfiança com que a platéia mais cerebral recebeu a divertida viagem de Polanski ao mundo imaginário dos vampiros.

Para começar, não havia nada de férias no projeto para Polanski. Muito pelo contrário. Depois de realizar o independente “Repulsa ao Sexo” e virar um nome respeitado no cenário internacional, o cineasta conseguiu financiamento norte-americano para o novo longa e viu, nele, a chance de firmar de vez seu nome no cinema internacional. Por isso, cercou-se de grandes nomes, como o renomado fotógrafo Douglas Slocombe, para realizar um estranho coquetel de horror, comédia e aventura nonsense.

“A Dança dos Vampiros” é um grande filme, um longa-metragem tipicamente europeu, que busca distância dos rótulos fáceis e situa-se numa fronteira de gêneros muito difícil de ser trabalhada com naturalidade. A trama mostra um velho estudioso de ocultismo, o professor Abronsius (Jack McGowan, em interpretação hilariante), viajando até a Transilvânia para tentar comprovar a teoria de que os vampiros existem. Não há referências a Drácula, mas nem precisava.

Quando Abronsius, acompanhado do atrapalhado ajudante Alfred (Polanski, mostrando que também é um ótimo ator, com timing perfeito para a comédia), chegam ao destino, encontram duas coisas: uma estalagem onde vive a belíssima jovem Sarah Chagall (Sharon Tate, deslumbrante antes de casar com o diretor) e um castelo habitado por uma excêntrica família de vampiros, que inclui inclusive um jovem e louro chupa-sangue afeminado.

O filme equilibra com maestria os momentos de horror e comédia, amparado por uma fotografia espetacular, que valoriza em detalhes as lindas paisagens geladas dos Alpes, o rosto angelical de Sharon Tate e a bela arquitetura secular da região. O baile dos vampiros que responde pelo clímax do filme, particularmente, é uma seqüência capaz de provocar sorrisos no amante do cinema de humor negro, pela beleza e elegância com que foi realizado. Para quem tem dúvida de que Polanski é gênio, “A Dança dos Vampiros” é um ótimo antídoto.

8.5.09

09/05 - As Duas Vidas de Audrey Rose (Robert Wise)

Neste Sábado dia 09 de Maio às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA



Janice (Marsha Mason) e Bill Templeton (John Beck) são um casal que vive feliz com sua filha única, a bem-comportada pré-adolescente Ivy (Susan Swift). Essa imagem de família feliz começa a ser decomposta com a chegada do estranho Elliott Hoover (Anthony Hopkins). Depois de suspeitas de que ele pretende molestar sexualmente Ivy, Hoover tenta convencer aos pais que seu interesse (quase uma obsessão) pela garota é apenas paternal. Para ele, a menina é a reencarnação de sua filha, morta em um terrível acidente. Coisas estranhas começam a acontecer a partir desse momento.

Anthony Hopkins faz um sujeito rico e estudado que tenta convencer um casal (Marsha Mason e John Beck), em plena Nova York, capital do mundo, de que a filha deles é a reencarnação da sua própria filha, Audrey Rose, que morreu queimada em um acidente de carro.

Aparentemente, pouca gente levou o filme a sério, apesar do peso do nome de Wise, vencedor de quatro Oscars, diretor de A Noviça Rebelde/The Sound of Music, um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos, e do extraordinário Amor, Sublime Amor/West Side Story, para citar apenas duas obras de sua vasta filmografia - que inclui o trabalho de montagem de Cidadão Kane/Citizen Kane.

Já o AllMovie, numa crítica assinada por Craig Butler, dá importância ao filme. “Audrey Rose, parte do ciclo de filmes de terror dos anos 1970 causado pelo enorme sucesso de O Exorcista, é um exemplo mais inteligente, cheio de nuances, do gênero - o que é ao mesmo tempo sua bênção e sua maldição. Robert Wise o dirigiu numa maneira relativamente suavizada, mas ainda assim tem diversos momentos apavorantes. Trabalhando sobre um roteiro muito palavroso - e que tenta discutir racionalmente o conceito de reencarnação ao mesmo tempo em que mantém uma atmosfera de horror -, Wise inteligentemente faz das palavras uma vantagem. Mantém o foco no diálogo - ou, muitas vezes, monólogo -, enquanto sutilmente dá grande ênfase aos movimentos para criar tensão ou suspense. Wise também dá ao filme um estilo visual, e a cena do homem de neve na escola é particularmente bem feita. Ele é ajudado pela atuação intensa, cheia de dor, de Anthony Hopkins, e pela mudança impressionante por que passa Susan Swift no papel título.”



Título no Brasil: As Duas Vidas de Audrey Rose
Título Original: Audrey Rose
País de Origem: EUA
Gênero: Terror
Tempo de Duração: 113 minutos
Ano de Lançamento: 1977
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.:
Direção: Robert Wise


22.4.09

25/04 - Faces (John Cassavetes)

Neste Sábado dia 25/04 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

Cinema do corpo, espelho da alma

A entrada em Faces é uma experiência abismal: depois de uma seqüência inicial um tanto metalingüística e quase deslocada (mas nem tanto) da narrativa subseqüente, somos jogados no meio de uma seqüência noturna em que dois homens e uma mulher saem do “The Loser’s Club” (que nome, que nome!!...), e vão para a casa dela. Lá, embriagados, se envolvem numa longuíssima seqüência de sedução e repulsa, onde muito aos poucos vamos entendendo os laços que unem (ou não) cada um deles. A seqüência é longa, mas os planos são curtíssimos, instáveis ao extremo: cortes rápidos, quebras constantes (e propositais) de eixo, aproximações extremas nos rostos misturadas com planos abertos, pequenas elipses. Uma leitura apressada falaria de uma “câmera bêbada” como os personagens, mas muito mais do que uma questão de embriaguez, a inquietude da câmera de Cassavetes é reflexo do desconforto dos personagens (a princípio um desconforto lido pela situação em si, mas que, ao longo do filme, veremos se tratar de um desconforto muito mais profundo, existencial mesmo).

Esta primeira seqüência, agressiva e confusa (ambos efeitos absolutamente propositais), estabelece um desafio ao espectador: “ame-me ou deixe-me”. O filme ali deixa claro para o espectador que não pretende facilitar sua fruição, nem no que tange a linguagem, nem especialmente no que tange o retrato das relações humanas. Trata-se, neste sentido, de ato até generoso: Cassavetes estabelece bem cedo suas regras, e permite ao espectador que tome por si a decisão de comprá-lo ou não. Aos que optarem por comprar, Faces oferece uma viagem às profundezas do ser humano, principalmente a partir das relações de gênero, amorosas e sexuais – e neste sentido o filme não poderia ser mais representativo do seu ano de produção (1968), antecipando muito do debate sobre os papéis da mulher que dominaria os EUA na década seguinte.

Nesta viagem, Cassavetes demonstra uma disposição cada vez mais rara no cinema que o sucedeu (em especial, o dito cinema independente americano, do qual foi eleito postumamente como o “papa e fundador”, mas que tão pouco deve a ele no geral): tornar ternura e agressividade, fragilidade e poder, desesperança e transcendência pólos não apenas próximos, como convivendo sempre nos mesmos corpos. Corpos, sim: porque embora o filme se chame Faces e realmente tenha alguns dos mais marcantes closes em rostos humanos vistos no cinema (especialmente os de Richard Morley e Lynn Carlin – estupendos – mas no de todos os atores), todo o jogo do filme é uma questão de corpos em movimento. Talvez fosse mais adequado falarmos mesmo corpos (nada celestes) em órbita, porque cada um deles parece gerar um campo gravitacional em torno de si, constantemente atraindo e repelindo os outros. Não por acaso os primeiros beijos entre Morley e Gena Rowlands mais parecem uma colisão entre dois objetos animados do que exatamente um encontro “amoroso” entre dois seres humanos. Trata-se menos da expressão de um desejo do que a simples concretização de uma força maior que ambos, que os empurra em direção ao outro. O mesmo acontecerá mais adiante nas cenas entre Seymour Cassell e Carlin, no apartamento desta – tanto na sedução como na impressionante seqüência da reanimação dela, em que poucas vezes vimos o peso de um corpo filmado com tanta força.

Tudo isso vai culminar na seqüência, e especialmente no plano final, em que os corpos de Morley e Carlin parecem mesmo atrair e repelir um ao outro seguidamente, como se eles mesmos não dominassem mais seus atos, seus impulsos, seu desejo do carinho, do entendimento, mas também da fuga, da liberdade, da recusa. Este plano final, inclusive, serve como antítese a todas as idéias mais simplórias do cinema de Cassavetes como um do domínio do improviso: um plano longo, de enquadramento fixo e estudadíssimo para atingir o máximo efeito das entradas e saídas de quadro, da relação de profundidade e mudança de altura através da escada. Plano para o qual todo o filme converge, mostrando que o cinema de Cassavetes é um do planejamento, ainda que um planejamento que incorpora a matéria-viva do cinema (ou seja, os atores – mas também a câmera) como partes criadoras de um sentido já muito pensado.

É aí que o cinema de Cassavetes se aproxima do de um Rohmer, que assim como ele (embora em registro visual e dramático absolutamente distinto, pelo menos após O Signo do Leão) se aproveitava de um determinado “efeito de real”, só que atingido a duras penas (através de uma exploração altamente estudada de progressão dramática e linguagem muitas vezes teatral – este último aspecto muito mais em Cassavetes, é verdade, especialmente notável, não só pelo tema, em Noite de Estréia). Só que este efeito de real, muito mais do que “fotocopiar” a vida, busca transcendê-la pela sua hiper-utilização, pela sua exacerbação, nos permitindo o sentimento essencialmente artístico do êxtase da percepção. Ou seja: tudo aquilo que um determinado cinema “sanguessuga do mundo real” (pensamos hoje especialmente em Na Cama, cuja trama inclusive possui paralelos com a de Faces) não consegue sequer compreender, que dirá solucionar cinematograficamente. Em Faces, muito mais do que apenas (apenas?) uma compreensão profunda dos dilemas humanos frente a incompletude e beleza inerentes aos encontros e relações amorosas, temos ao trabalho um mestre da arte cinematográfica no ápice do seu domínio da linguagem que resolveu explorar. Não é pouca coisa.

por Eduardo Valente.

Direção:

John Cassavetes

Ano:

1968

País:

Estados Unidos

Gênero:

Drama

Duração:

130 min. / p&b

Título Original:

Faces

Elenco:

John Marley, Gena Rowlands, Lynn Carlin, Seymour Cassel, Fred Draper, Dorothy Gulliver, Jerry Howard, Carolyn Fleming, Don Kraatz, Val Avery

Sinopse:

O enredo do filme reflete as insatisfações da classe média americana e a falência da instituição familiar a partir de uma trama de troca de casais.

26.3.09

28/03 e 04/04 - Smoking/No Smoking (Alain Resnais)

Nos dias 28/03 e 04/04 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA





As consequências de uma dona de casa fumar ou não um cigarro ramificam-se numa dúzia de destinos separados e universos paralelos, cada um com sua própria conclusão, nesses dois longas franceses de Alain Resnais. Adaptado e traduzido de seis das oito peças cômicas que compreendem o ciclo Intimate Exchanges do autor inglês Alan Ayckbourn, eles podem ser assistidos juntos ou sozinhos, e em qualquer ordem. O projeto, um tour de force para dois atores, interpretando múltiplos papéis (Pierre Arditi e Sabine Azema), foi um sucesso de bilheteria quando lançado na França em 1993, e como uma unidade os dois filmes varreram os Cesars (o Oscar francês) de melhor filme, diretor, ator, e cenografia.



Título original: Smoking/No Smoking
Realização:
Alain Resnais
Intérpretes:
Sabine Azéma, Pierre Arditi França, 1993

13.3.09

14-03 - Bande à Part (Jean-Luc Godard)

Neste Sábado dia 14-03-2009 às 19:30hrs
No SESC Cineclube Silenzio
ENTRADA GRATUITA

"Bande à Part" (1964 - 92m)

SINOPSE
"As personagens de Godard vivem como se estivessem (ou talvez como se vivessem) num filme: Cantam e dançam como se vivessem num musical, percorrem Paris como se estivessem num filme noir, disparam como se estivessem num western." -Luis Miguel Oliveira, Cinemateca Portuguesa

Pondo alegremente em prática a máxima de D. W. Griffith - "para fazer um filme basta uma garota e uma arma" - BANDE À PART é a homenagem de Godard aos filmes policiais da Hollywood dos anos 40. Frantz e Arthur, dois amigos porras loucas habituados a meter-se em embrulhadas, conhecem a tímida Odile (interpretação extraordinária de Anna Karina, à época mulher e musa de Godard), que lhes conta que a sua tia Victoria e um amigo, o sr. Stolz, escondem em casa uma avultada soma de dinheiro. Frantz e Arthur começam imediatamente a planejar um roubo. Enquanto acompanhamos as deambulações deste trio improvável pelos cafés e ruas de Paris, cresce a suspeita de que o golpe que preparam não vai correr de acordo com o plano. Com fotografia de Raoul Coutard e música de Michel Legrand, BANDE À PART, é um dos mais famosos filmes do cineasta franco-suíço, tem algumas das mais antológicas cenas da história do cinema, nomeadamente a sequência da dança no café que inspirou Quentin Tarantino em "Pulp Fiction" e Hal Hartley em "Simple Men", além da corrida pelo Louvre homenageada por Bertolucci em "Os Sonhadores"

DIRETOR
Jean-Luc Godard

INTÉRPRETES
Anna Karina, Danièle Girard, Louisa Colpeyn, Chantal Darget, Sami Frey, Claude Brasseur, Georges Staquet, Ernest Menzer, Jean-Claude Rémoleux.

13.1.09

CICLO DE FÉRIAS - FAÇA CHUVA OU FAÇA LUA - 19 a 23/01

CICLO DE FÉRIAS
Faça Chuva ou Faça Lua
De 19 a 23/01 às 20:30hrs no SESC Cascavel


19/01


20/01


21/01


22/01


23/01


PARA RECEBER AS SINOPSES MANDE UM EMAIL PARA
cineclubesilenzio@gmail.com

15.12.08

CICLO AO LUAR (Desta vez vai)

DE 15 a 19 de Dezembro às 20:30hrs

COMEÇA HOJE (15/12) O CICLO AO LUAR COM O FILME CANTANDO NA CHUVA ÀS 20:30HR no SESC

A SEMANA SEGUE COM OS FILMES:

O PICOLINO
O MÁGICO DE OZ
NÚPCIAS REAIS

E UM FILME SURPRESA NA SEXTA-FEIRA

VENHAM TODOS CURTIR UM "PRÉ-NATAL" COM UM CLÁSSICO À LUZ DO LUAR.

ABRAÇOS

5.12.08

CICLO AO LUAR - DE 08 a 12 de Dezembro

DE 08 a 12 de DEZEMBRO (segunda a sexta) às 20:30h no SESC



1- CASABLANCA
(Casablanca, 1942)

Rick é dono de um famoso bar localizado em Casablanca, no Marrocos Francês, durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade é rota de fuga para quem deseja evitar os nazistas, onde passes livres são vendidos por um salgado preço no mercado negro. Neste caótico ambiente, Rick encontra Ilsa, com quem tivera um amor interrompido inesperadamente há algum tempo, em Paris. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor e Roteiro, possui ainda uma das mais belas canções já compostas para um filme, "As Time Goes By".



2 - O PICOLINO
(Top Hat, 1935)

Um bailarino é contratado para estrelar um musical. Em meio aos ensaios, ele conhece e se apaixona por uma bela mulher. Porém, o romance entre os dois é interrompido porque ela pensa que o bailarino é noivo de sua amiga. Com Fred Astaire e Ginger Rogers. Recebeu 4 indicações ao Oscar



3- CANTANDO NA CHUVA
(Singin' the Rain, 1952)

Em 1927, Hollywood está um verdadeiro rebuliço, com a transição do cinema mudo para o falado. Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hage), o casal mais querido do cinema mudo, prepara-se para rodar um musical. Mas infelizmente Lina não só não sabe cantar, como tem uma voz horrível. A estreante Kathy Selden (Debbie Reynolds) é chamada a emprestar sua voz à estrela. As gravações são uma confusão, mas tudo piora quando Don se apaixona pela doce Kathy. Ao lado de seu inseparável amigo, o compositor Cosmo Brown (Donald O' Connor), ele tenta mostrar ao mundo o talento de Kathy



4- O MÁGICO DE OZ
(The Wizard Of Oz, 1939)

(The Wizard Of Oz, 1939) Nós batemos nossos saltos na expectativa. Não há lugar como o lar e nenhum filme como este. De geração para geração, O Mágico de Oz nos mantém unidos - crianças, adultos, famílias, amigos. A impressionante terra de Oz, um mundo de sonhos que viram realidade, de florestas encantadas, espantalhos dançantes e leões cantates, uma mágica aventura recheada de maravilhosas canções. Baseado na preciosa série de livros de L. Frank Baum, O Mágico de Oz foi julgado o melhor filme familiar de todos os tempos pelo American Film Institute. E essa restauração nunca vista antes parece e soa melhor do que antes. Nós convidamos você para embarcar rumo a Cidade Esmeralda na mais famosa estrada da história do cinema. Dorothy (Judy Galard), Espantalho (Ray Bolger), Homem-de-Lata (Jack Haley) e Leão Covarde (Bert Lahr) esperam por você na Estrada dos Tijolos Amarelos e Over The Rainbow.



5- NÚPCIAS REAIS
(Royal Wedding, 1951)

Dois irmãos bem distintos, ele sério e ela baladeira, embarcam para Londres para um importante show. As diversões da irmã colocam em perigo o sucesso da dupla.